As aventuras que Indiana Jones gostava de ter vivido
Texto: NUNO GALOPIM
Era uma vez uma filha de rei, casada agora com outro rei. Estamos em 1738 e Maria Amália Cristina, filha de Augusto III da Saxónia e agora casada com Carlos de Bourbon, rei das Duas Sicílias, caminha entre jardins e palácios de Nápoles, maravilhando-se com velhas estátuas que tinham sido desenterradas na região, antes da última grande erupção do Vesúvio. Da sua vontade de descobrir mais peças surgiu a ideia de buscas sob as lavas e escórias, aproveitando fissuras e poços para colocar cargas explosivas e tentar rasgar mais ainda o chão. “Depois chegou o momento em que a picareta bateu no metal com um vibrante som de sino. E descobriram três fragmentos de cavalos de bronze maiores que o natural”… É assim que, numa narrativa que se saboreia como um romance, sem contudo sequer experimentar uma ideia de novelização, que C.W. Ceram nos transporta a um dos primeiros episódios que conduziram à (re)descoberta das cidades romanas de Pompeia e Herculano, soterradas no ano 79 por uma tremenda erupção. E com ele abre uma coleção de relatos que, muito antes de Spielberg nos dar a conhecer as aventuras de Indiana Jones, transportou a arqueologia para um patamar de familiaridade que transcendia os entendidos na matéria. Aqui, contudo, narrando histórias reais, recordando com elas os seus protagonistas, observando gentes e lugares e, claro, no tutano de tudo, o desafio da busca e o entusiasmo da descoberta. Era uma vez Deuses, Túmulos e Sábios, um título marcante na história da divulgação da arqueologia, editado originalmente em 1949 e desde logo com traduções em várias línguas e vendas globais na casa dos milhões.
Mas há uma história a contar antes destas histórias. C.W. Ceram na verdade não era senão um pseudónimo de Kurt Wilhelm Marek (1915-1972), um berlinense que iniciara a sua carreira na escrita como crítico literário e de teatro. Soldado alemão durante os tempos da II Guerra Mundial, acabou feito prisioneiro, usando essa etapa para ler sobre arqueologia, surgindo aí a vontade de juntar esses relatos de descobridores e grandes achados sob uma mesma lombada. Terminado o livro, e sem quem o quisesse editar – não houve um editor que recusou também os Beatles? – avançou em modo DIY (ou seja o tal “do it yourself”). O sucesso de Deuses, Túmulos e Sábios: O Romance da Arqueologia é quase imediato, galgando fronteiras de línguas e culturas, levando à volta do mundo, e a 28 idiomas, aventuras que permitiram a redescoberta de construções, figuras, factos e costumes de outros tempos em várias épocas e geografias. Não foi o seu único livro sobre arqueologia – lembro-me de ler, em tempos, O Segredo dos Hititas. E de uma obra que cativou atenções nasceu o próprio nome do prémio para obras de não-ficção na área da arqueologia, o Ceram Prize, atribuído (irreguralmente) desde 1974.
Deuses, Túmulos e Sábios soma já 66 anos de vida desde o momento da primeira edição. E por muitos avanços que as ciências e tecnologias tenham colocado nas mãos dos arqueólogos, e mesmo havendo a juntar a estas narrativas alguns achados feitos desde então – como por exemplo a descoberta, em 1974, do exército em terracota do imperador chinês Qin Shi Huang – a verdade é que moram nas páginas deste volume, de mais de 430 páginas, as narrativas de alguns dos mais importantes achados.
O livro arruma as histórias e descobertas em grandes blocos geográficos, a cada um correspondendo uma civilização ou conjuntos que coexistiram no espaço, por vezes no tempo. O mundo greco-romano habita as histórias da primeira parte, juntando a Pompeia e Herculano alguns relatos históricos, da descoberta de Tróia por Schielmann às escavações que revelaram o maravilhoso Palácio de Cnossos, em Creta, por Sir Arthur Evand. O saber narrativo do autor não esquece quão importantes são as personagens de quem falam as histórias. E por isso junta ao lugares e achados as memórias de carne e osso de quem protagonizou alguns destes episódios, da figura pioneira de Johann Joachim Winckelmann a Heinrich Schielmann, cuja passagem por estas páginas começa num capítulo com o título “História do rapazinho pobre que encontrou um tesouro”.
Na segunda parte rumamos ao Egito onde se conta como Champollion descodificou a escrita por hieróglifos, se narram histórias de “larápios de necrópoles” e esse achado que fez de um dos mais insignificantes faraós um dos mais conhecidos dos monarcas de então: a descoberta por Howard Carter do túmulo de Tutankhamon, em 1922. É com alguma dor de alma que avançamos depois pela terceira parte adentro, recordando achados na região da antiga Babilónia, passando por Nínive e os palácios de Nimrud, que por motivos de ignorante selvajaria fundamentalista tem chegado às notícias ao longo de alguns meses, em alguns casos falando-se aqui do achado de estruturas que, agora, não estão mais em pé. A quarta parte transporta-nos depois às Américas e às descobertas de vestígios das civilizações pré-colombianas. Há no fim uma cautela em deixar claro que algumas histórias ficaram por contar, deixando ali cenas de eventuais aventuras futuras.
Sessenta e seis anos depois, numa edição corrigida e melhorada, numa tradução de Elisa Lopes Ribeiro, Deuses, Túmulos e Sábios volta a respirar à luz do dia agora num lançamento pela Cavalo de Ferro. Já tinha lido este livro há anos… Há muitos mesmo… O reencontro foi como quando relemos aqueles romances que nos marcaram. E assim as velhas histórias ganham vida outra vez.

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