William Basinski: “O público é sem dúvida parte do espetáculo”
Texto: ANDRÉ LOPES
O músico que se demarcou no contexto da música ambiente pelo modo como estabelece pontes entre a eletrónica e a manipulação de loops em fita, vai estar em Lisboa no próximo dia 18 (esta sexta-feira) para apresentar Cascade e The Deluge, ambos lançados já este ano. O concerto terá lugar no Musicbox, numa noite que promete deixar mais uma vez claro o modo ímpar como o artista americano se move no panorama musical da atualidade.
Tanto Cascade como The Deluge, apresentam variações do mesmo loop de melodia de piano. Em cada um deles, é possível sentir uma forma de desenvolvimento e de evolução imprevisível, que em muito se deve a efeitos de reverberação e feedback. A audição do resultado final de ambas as peças é quase transcendente. É essa a meta que propõe para si próprio quando cria?
Em última análise, o resultado dito ideal é aquele que consegue alcançar um plano de transcendência, sim. Não funciona em todos os casos, mas por vezes é-se sortudo. É algo que pode ser alcançado, às vezes quase por milagre – o que para mim é ótimo já que sou preguiçoso. Este projeto tornou-se num processo que deu luta, mas raios, chegámos ao nosso objetivo, por isso ainda bem que não deitámos tudo para o lixo quando nos começámos a deparar com obstáculos. Este deveria ter sido um processo fácil mas não o foi de todo.
A metodologia de repensar uma composição para piano escrita há já vários anos poderá ser vista por um lado, como reinvenção, e por outro, como oportunidade para refinar a peça original. Essas são perspetivas com as quais concorda ou, no seu caso, prefere guiar-se por outros ímpetos criativos?
Sempre gostei muito deste loop em particular. Mas, com o passar do tempo e com o envelhecimento, começaram a surgir certas alterações… ou na verdade estavam lá desde início sem que tivéssemos dados conta… e por vezes chego a um ponto em que penso “já nem te reconheço!”. Isto é o que acontece quando me olho ao espelho… “esse não sou eu!”. Quem é essa pessoa já envelhecida? Na altura em que finalmente me senti pronto para trabalhar esta pérola, ela tinha rugas das quais não me lembrava, vincos fundos na face! E esses não eram aspetos que fossem representativos da sua beleza eterna, portanto tivemos um trabalho significativo no que diz respeito ao restauro da sua beleza cristalina, quase divina. E valeu o esforço: posso dizer que estou (e ela também) muito satisfeito com o resultado final.
Até agora, o modo como trabalha o som tem sido muito pautado por um empenho acrescido nas textursa. Existe algo concreto que o faz afastar-se, por exemplo, de abordagens mais percussivas? Isto para além do conforto que veio a adquirir no que toca ao trabalho com texturas…
Não; eu tendo a trabalhar de forma vagarosa durante longos períodos de tempo… No fundo costumo dizer que tento ficar no mesmo momento eterno, durante o qual passam meses e anos, enquanto trabalho na mesma peça. Dá tempo para que o raio da Apple possa fazer alterações, três vezes, no seu sistema operativo, antes que eu consiga terminar um projeto… O que acho terrível. É algo que detesto na Apple: dantes faziam ferramentas para artistas, mas agora são só mais uma empresa de brinquedos. Mas já me estou a dispersar, desculpa. Tenho um volume considerável de música que ainda não foi lançada… Alguma é boa, alguma não tanto. Parte dela será eventualmente lançada como peça perdida de arquivo. E parte será destruída! Mas, secretamente, eu e o engenheiro de estúdio que trabalha comigo (Preston Wendel), estamos a trabalhar num novo projeto só porque queremos. Pode vir a dar em nada, mas se funcionar, será algo com o que as pessoas se surpreenderão ao ver associado a mim. Seria lançado sob outro nome ou pseudónimo, por agora ainda não me decidi. Mas tenho grandes expectativas para esse projeto, já que me estou a divertir e a aprender muito com esse rapaz adorável que está comigo em estúdio. Mas não garanto nada.
Para um artista experimental, qual o maior desafio que encontra quando trabalha com peças ou obras antigas? De que forma é que as suas memórias influenciam a forma como recria essas mesmas peças?
Creio que a parte mais difícil seja, como disse há pouco, a diferença entre a memória que tinha do som da peça original e a forma como ela soa hoje. Que acaba por ser como quando sinto que tenho 25 anos e, ao ver a minha imagem no espelho, lembro-me que afinal tenho uma cara com 57 anos… Que não é muito bonita! Mas é algo com que aprendi a lidar. Menos espelho e mais audições!
Nota-se que por vezes persiste a ideia de que autores de música dita “ambiental” são “criaturas de estúdio”, contudo o William faz digressões frequentemente. Vê o contexto de palco como uma oportunidade ideal para recriar as suas peças, tal como um laboratório sonoro onde a reação do público talha o resultado final e influencia o seu processo de conceção?
Demorou bastante até que se chegasse ao ponto em que existissem pessoas que quisessem que eu viajasse e mostrasse o meu trabalho por todo o mundo, portanto devo dizer que tudo isto constitui uma grande experiência. Uma experiência pela qual não se pode passar estando fechado num estúdio. E sim, sou quase um recluso quando estou no meu laboratório no qual sou um cientista louco. Mas com os pequenos decks de cassetes Uher que vim a adquirir ao longo do tempo, já me é possível viajar e ter um conjunto de equipamento similar ao que uso em estúdio. Dessa maneira acabo por estar apto a criar ao vivo, diante de uma plateia. Agora, é claro que quando estou em digressão, ando a apresentar uma peça concreta, que faço questão de ensaiar e fazer de forma ligeiramente diferente em cada cidade. E há sempre enganos, coisas pequenas que acontecem às vezes… e que ora são interessantes ora são… oops! Mas enfim, continuo com a minha vida… mas ter um público presente é sem dúvida maravilhoso. Nunca pensei viver para fazer este tipo de coisa, na verdade. Portanto tento sempre falar com o público antes dos concertos, enquanto ligo as minhas ferramentas depois do ensaio de som. Isto para que todos fiquem confortáveis. Depois disso, seguimos todos juntos para uma viagem abordo de uma nave espacial! Na Nave-Mãe! E é um estrondo, não há nada que se compare. E fazer digressões de concertos a esta escala é uma seca: o jet lag, os hotéis duvidosos, não ter tempo para refeições, sei lá. Num plano pessoal andar em digressão não é de todo glamoroso! É um trabalho. Mas quando chegas a palco e vês na plateia pessoas que vieram de todo o lado para estarem presentes contigo… E quando descolas nesta viagem não há mesmo nada no mundo que se possa comparar a isto, e é isso que faz com que toda a confusão valha a pena. E pronto, a minha vida de momento é isso mesmo. O público é sem dúvida parte do espetáculo. As pessoas são a tripulação a bordo da Enterprise, na qual viajamos pela galáxia.
O improviso é algo que considera como uma possibilidade viável na música ambiente? Ao ser uma técnica que funciona de modo tão imediato, é algo que se integra pacificamente nos seus modelos criativos?
Eu estou sempre a precisar que aconteçam coisas inesperadas: erros, surpresas… isto para que seja possível criar uma química que me mova. Às vezes essas coisas irritam-me, mas talvez sejam precisamente essas as coisas que me estavam a faltar para perceber que direção é que devo escolher e seguir.
Apesar de ter trabalhado com um engenheiro de som no Cascade / The Deluge, nesta digressão estás sozinho em palco. Encarar o público sem mais ninguém ao lado é algo com o qual se sente confortável?
Tenho atuado em palcos de diferentes tamanhos já desde os meus tempos da escola. De maneira que se acabam por adquirir certas técnicas, ainda que uma pessoa tenha de ganhar presença de palco. Essa é uma boa pergunta. Sei que tenho tempo antes do espetáculo para, juntamento com os técnicos, ajustarmos o som, a luz, as projeções. Fazer o ensaio de som, digo. Depois faço um reset aos meus aparelhos de palco, para que quando lá chegar para atuar, tudo esteja pronto. Em seguida vou para o camarim, bebo uns copos e tento acalmar-me. E quando me chamam para o palco, digo uma oração e vou até lá para comandar a nave. Converso com o público para os preparar para o voo… tal como como quando aparece o capitão de um avião. Reclamo toda a situação para mim próprio, faço o meu concerto, esperando e rezando para que tudo corra bem. Tive professores muito bons… ainda recentemente, o Robert Wilson. Um encenador brilhante, com o qual tive uma das experiências mais importantes da minha vida, ao trabalhar na sua ópera The Life and Death of Marina Abramovic, para a qual eu e o Antony (Hegarty) escrevemos a música. E em relação a isso eu podia falar sobre aquilo que aprendi com o Bob e com toda a equipa, em termos de construção da música… Mas houve algo que ele quis ensinar a toda a gente mesmo no final do processo. Precisamente antes da noite da estreia, o Bob ensinou toda a gente como fazer as vénias finais: individualmente, com o grupo respetivo, com toda a equipa, etc. São coisas simples: reconhecer e valorizar todos os envolvidos na obra, tal como o público, com graciosidade e com gratidão.
Que importância dá ao papel do ouvinte no processo de comunicação por via da música?
Sem eles não haveria música… é como quando uma árvore cai na floresta e não está lá ninguém para ouvir.
Há três anos houve uma reedição dos The Desintegration Loops numa caixa de discos em vinil. Tendo uma origem tão íntima e ligada a um plano emocional tão forte, esse é um legado que joga contra si, ou a partir do qual se sente fortalecido?
No início eu estava bastante hesitante em fazer essa reedição em vinil pelo facto da duração das faixas ter de ser dividida por causa dos lados dos discos. Mas quando o Jeremy (deVine) me mostrou a caixa da Temporary Residence… foi realmente algo extraordinário. Partiu-me o coração pensar que… Uau, olhem só para aquilo! É meu! Foi um presente vindo dos céus e pelo qual estarei eternamente grato porque ainda hoje acho que é algo lindo. Por isso acho que nunca serei capaz de superar esse momento épico… mas por mim não há problema. Será que alguém o conseguirá?
Da música atual, o que é que mais o entusiasma? Há algo que o inspire particularmente?
Não me consigo manter a par da cena musical, mas tento ouvir estações de rádio de universidades. O Preston mostra-me ainda algumas coisas que eu não descobriria sozinho… nunca fui alguém que consumisse muita música. Tenho amigos que o fazem. Os meus ouvidos andam suficientemente ocupados com vários projetos durante a maioria do tempo.

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