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Antes da identidade, um vulto

Texto: ANDRÉ LOPES

As três mixtapes que em 2011 deram a conhecer o projeto de Abel Tesfaye veem finalmente a sua edição individual em suporte físico em território português. O fulgor destes lançamentos iniciais é absolutamente ilustrativo de uma época em que o R&B procurava ir além dos dinamismos habituais.

House of Balloons, Thursday e Echoes of Silence serviram a princípio como introdução à proposta sonora deste então novo projecto: The Weeknd surgia no início da década de forma quase anónima, utilizando a internet como molde comunicativo para a transmissão de uma ideia de incógnita biográfica, ilustrada por imagens que serviam de correspondente visual tanto do som, como das palavras que se escutam nestes três álbuns. Ao longo deles, seguem-se versos sobre a vivência hedonística do seu autor, versos esses cercados por uma ambiência noturna onde eletrónicas coexistem com a manipulação de samples de nomes como Beach House, Siouxsie and the Banshees ou Cocteau Twins. E é aqui que reside um dos principais elementos para a fervorosa aclamação desta primeira fase do trajeto artístico de The Weeknd, nomeadamente nos primeiros dois discos: em ambos pode ser ouvida uma vontade egocêntrica de cortar ligações com o exterior, na igual medida em que a deturpação de referências de outros contextos é em si mesmo aquilo que dá um corpo único às canções. Seja no trabalho com samples ou no modo como se recordam técnicas de produção que já se escutavam em algum do R&B e hip hop do início do séc. XXI.

Na verdade, o intervalo de tempo no qual estes três primeiros discos surgiram, desempenha um papel de relevância maior na compreensão do porquê da aceitação crítica que então receberam. O ano que separou os dois últimos álbuns de Usher; a ocasião em que Dev Hynes surge pela primeira vez enquanto Blood Orange. Enfim, 2011 espelhou a ressaca do disco em que, no ano anterior, How to Dress Well editava Love Remains com a pretensão de detalhar o modo como a existência do R&B podia ser enquadrada numa dimensão de baixa-fidelidade sonora quase extremada, de resto coadunada com versos igualmente soturnos. Frank Ocean, Solange, Drake e Miguel são nomes que por estas alturas foram também trabalhando com ideias variadas para revitalizar uma forma de escrita de canções, que atualizasse de certo modo o cruzamento entre as linhas clássicas da soul e os caminhos mais recentes do R&B de acordo com técnicas e texturas típicas do que a música dita alternativa oferecia então.

É nesse panorama que esta trilogia de The Weeknd consegue destacar-se, a partir de discos com uma coesão notável e que, involuntariamente, vieram a marcar o ponto alto de uma carreira que entretanto seguiu por outras direções. Mas existe mais nestes lançamentos inicias para além do estilo e das técnicas de produção alternativas, especialmente em House of Ballons: aqui encontramos uma coleção de canções que deram a conhecer ao mundo um espírito apaixonado pelas suas próprias narrativas autodestrutivas e, sim, sexistas – algo que infelizmente se tornou perigosamente banal quando pensamos no R&B contemporâneo. Thursday, o segundo volume desta trilogia abre os horizontes sonoros de The Weeknd a partir de flirts momentâneos com a guitarra acústica (Rolling Stone) ou mesmo com o reggae (Heaven or Las Vegas), isto sempre, claro está, com uma produção que se esforça por garantir que estas musicalidades se apresentam de forma “alternativa o suficiente” para continuar a cativar um certo nicho de fãs. Echoes of Silence termina este tríptico com uma proposta segundo a qual se podia antever já uma vontade em explorar estruturas próximas da canção pop habitual – D.D. e Montreal são disso testemunho, apesar de coabitarem no mesmo alinhamento onde se encontra Initiation, a canção mais explícita de todo o repertório de The Weeknd até ao momento.

Um conjunto de elementos que formam uma verdadeira declaração de intenções quanto ao propósito artístico deste projecto, esta tríade de discos contém em si todos os ingredientes que viriam a figurar nos lançamentos seguintes de The Weeknd e por isso mantêm-se até hoje como o legado mais saliente de um músico que viria a encontrar em sonoridades mais luminosas, o seu caminho enquanto artista.

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