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O palco da ferocidade dos Animal Collective

Os Animal Collective lançaram “Live at 9:30”, o registo áudio de um concerto em Washington D.C., durante uma digressão de 2013 após o lançamento de “Centipede Hz” (de 2012).

São conhecidos por serem uma das bandas mais inventivas no novo milénio, um facto que é na sua plenitude inegável quando se considera a variedade presente na extensa discografia que os Animal Collective já revelaram. Está em causa um projeto que não teme aventuras profundas por trajetórias realmente experimentais e que não considerava inicialmente a componente melódica como algo obrigatório para a sua musicalidade; tal como os registos iniciais da banda como Danse Manatee (2001), Campfire Songs (2003) ou Here Comes the Indian (2003) deixam perceber. Ainda assim, uma maior afinidade com sonoridades relativamente mais apelativas foi surgindo com a incursão por ideias apoiadas na voz segundo modalidades mais familiares, ainda que cercadas de sons acústicos que mantinham a sua irregularidade, tal como acontece em Sung Tongs (2004). Desde então, os Animal Collective têm conseguido conciliar de forma impressionante, uma atitude melódica menos agreste com um sentido de experimentação sónica que persiste vigorosamente.

Quanto ao palco, este sempre foi visto por este conjunto de músicos como uma arena perfeita para experimentar uma reconstrução das suas canções de forma ainda mais intensa, constituindo muitas vezes um desafio para quem ouve. Esse espírito que de facto se poderá classificar como alternativo, confirma-se logo desde o primeiro registo ao vivo editado pelo grupo – em Hollinndagain (2002) era apresentado aliás um conjunto de canções que na sua maioria nem tinham conhecido lançamento prévio. A vontade de expandir e reestruturar as canções perante o público persiste e Live at 9:30 é disso lembrete.

Gravado num concerto que integrava um conjunto de datas em que os Animal Collective partilhavam o palco com Dan Deacon – que nessa altura apresentava o seu álbum America (2012) – o que ouvimos neste novo disco solidifica os ideais que regem o output artístico da banda. No alinhamento, surge uma versão muito pouco apressada de My Girls, inserida aqui numa eletrónica expansiva que contrasta com a atitude condensada da versão de estúdio, e Pulleys que aqui atinge os 15 minutos em formato de jam ora eletrónica ora tribal. Esse sentido rítmico que muitas vezes se torna quase exótico é também uma das marcas que tornam as atuações dos Animal Collective tão ímpares, já que a forma como a percussão é aqui processada, contribui para que em todas as faixas presentes em Live at 9:30 o espírito de liberdade quase infantil que se sente ao longo de todo o repertório da banda, se torne mais palpável. Monkey Riches ou o final de Brothersport são quase vertiginosos, e The Purple Bottle – a incrível peça central de Feels (2005) – é aqui executada de modo ainda mais frenético do que acontecia na sua versão original.

Toda esta agitação associada à reinvenção patente no improviso que ocorre nas faixas deste registo ao vivo pode contudo ser quase alienante, especialmente para quem se deixou cativar pela banda graças à afabilidade de Merriweather Post Pavilion (2009). Mas em causa está agora um álbum cujo propósito se cumpre na totalidade, apesar de não surpreender quem se encontra já familiarizado com as filosofias criativas dos Animal Collective e o frenesim que os seus concertos provocam.

Animal Collective
“Live Live at 9:30”
Domino
3/5

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