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A fixação no passado

Texto: ANDRÉ LOPES

Ainda que seja o sexto álbum de originais das irmãs Casady, esse é um aspeto que mais do que evitado ao longo do alinhamento do disco, parece ser a premissa da qual as CocoRosie mais se querem distanciar.

Com um percurso artístico que teve início na segunda metade da década passada, a forma ora excêntrica ora questionável com que as CocoRosie se movimentam na música, tem por base uma conceção muito própria dos caminhos que a folk alternativa (freak?) pode seguir. La maison de mon rêve (2004) e Noah’s Ark (2005) servem até hoje quase como um manifesto das ideias sonoras e sugestões poéticas que a música de Bianca e Sierra Casady tende a reordenar vezes sem conta: a afinidade especial por instrumentos acústicos, o gosto pela percussão quase artesanal e ruídos provenientes de brinquedos sonoros, sem esquecer a conjugação de melodias vocais que percorrem convictamente o caminho que une o rap ao registo lírico.

É essa a musicalidade que dá corpo a versos que cruzam divagações sobre um conjunto de figuras fantasiadas, com os indícios abstratos de uma trama de relações familiares fora do comum. E se The Adventures of Ghosthorse and Stillborn (2007) marcou uma vontade então recém-descoberta pela exploração das potencialidades de novos instrumentos e formas de construir canções, Heartache City é apresentado segundo uma premissa de regresso às origens, ainda que nada por aqui se possa comparar ao encanto dos discos que serviram de ponto de partida para as CocoRosie.

Escrito e ensaiado numa quinta no sul de frança, que servira de estúdio quando os recursos das irmãs Casady não permitiam experiências de maior fidelidade, o conjunto de canções que nos apresentam agora transparece por inteiro a sua origem em gravação a 4 pistas, com o intuito de assim conseguir uma clima em tudo semelhante a La maison de mon rêve (2004). O espírito introvertido e caseiro torna-se mais uma vez fácil de sentir, o que ainda assim não se revela suficiente para encobrir o quão ineficazes as faixas de Heartache City são, quando comparadas com os momentos em que as CocoRosie nos surgiram mais concentradas na escrita de canções (recordem-se Werewolf, Lemonade ou Beautiful Boyz) ou quando não tiveram pudor em ousar experimentar (Rainbowarriors, Miracle ou The Sea Is Calm). O principal problema deste novo disco prende-se, eventualmente, com a vontade excessivamente vincada em recordar um passado que é recorrentemente apontado como o momento mais interessante da carreira das CocoRosie, sem acrescentar a essa nostalgia elementos que a possam tornar pertinente passados dez anos.

O trabalho de produção foi levado a cabo de forma intencionalmente minimal por via de uma vontade em aproximar Heartache City (mais uma vez) de um tempo em que a dependência tecnológica não se fazia sentir de forma tão intensa como hoje, tendo sido essa a justificação para a crueza quase lo-fi que paira por faixas como Un Beso ou The Tower of Pisa. Apresentadas em palco durante a última digressão das CocoRosie, tanto Lost Girls como a faixa que dá nome ao álbum surgem por entre o alinhamento como os momentos mais convidativos a repetidas audições, já que é por aqui que a insistência num tempo que não volta parece ter ficado esquecida – ouve-se uma guitarra elétrica bem pensada ou mesmo metais de sopro. No One Knows She Goes There fecha o disco em tom fúnebre e que de algum modo serve de incentivo para uma reflexão sobre os propósitos que podem guiar a escrita de canções e o lançamento de álbuns. No caso das CocoRosie, que carregam consigo o peso de um repertório rico em versatilidade e ímpeto transgressor, poderão ser colocadas questões relacionadas com o traçar de novos caminhos que não levem à descaracterização da sonoridade que lhes é própria. Heartache City não problematiza nem perde muito do seu tempo de duração a avançar com novas fórmulas – ao contrário do que aconteceu de forma brilhante em 2010, com Grey Oceans – ainda assim garante uma audição envolvente para todos aqueles que encontrem alento na familiaridade e na nostalgia.

CocoRosie
“Heartache City”
ed. autor
3/5

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