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Em busca de um mundo novo

Texto: ANDRÉ LOPES

Sexwitch é o nome do projeto que junta os ingleses Toy e Natasha Khan (Bat for Lashes), numa demanda exploratória em torno de uma herança psicadélica encontrada em latitudes menos comuns.

Em 2013, os Toy convidavam Natasha Khan para uma participação no faixa The Bride – uma versão da canção iraniana Aroos Khanom, escrita por Amir Rassaei, incluída na compilação Zendooni: Funk, psychedelia and pop from the Iranian pre-revolution generation. Como o nome indica à partida, esse é um disco onde é feita uma proposta de descoberta face a uma época em que, no Irão, se revelava uma certa vaga de canções pop cujas raízes fundiam modelos ocidentais com sonoridades persas. Essa compilação, onde se descobre uma espantosa justaposição de ideias que fazem pensar numa variante mística de bossa nova, emoldurada por um sentido rítmico que não se distancia muito do rock progressivo da década de 70, está na base do propósito dos Sexwitch. Ao longo de seis faixas do primeiro disco do projeto inglês, o exotismo de canções que integram originalmente o cancioneiro de países como a Tailândia ou Marrocos, surge aqui apresentado de acordo com os maneirismos típicos de duas bandas.

Dos Toy, recordamos a vontade de construir canções estruturadas no rock alternativo em constante conversação com tendências do shoegaze e do post-rock. Já no caso de Bat for Lashes, Fur and Gold (2006) e Two Suns (2009) persistem na memória como álbuns em que Natasha Khan encontrava no paralelismo entre a música pop e a folkatronica, terreno fértil para o desenvolvimento de ideias melódicas que infelizmente não se souberam desenvolver de modo igualmente imaginativo num terceiro registo longa-duração. Sexwitch não nasce com a perspetiva de dar continuidade direta ao repertório de nenhuma das bandas envolvidas na sua conceção, podendo enfim ser visto como uma aventura dual, um exercício de estilo sobre memórias descontextualizadas.

O caminho proposto aqui, segue a rota de uma aventura sónica orgulhosa das suas preferências geográficas que espelham um interesse em perceber, afinal, que ingredientes podem integrar aquilo que se considera como música psicadélica contemporânea. Esse entendimento vê-se completo neste primeiro disco de Sexwitch, por via de uma pequena coleção de canções que não têm pudor em desafiar. Ghoroobaa Ghashangan e Ha Howa Ha Howa consolidam uma atmosfera tribal que se fará sentir por todo o alinhamento: tanto o baixo como a percussão surgem aqui de um modo que não encontra proximidade com o que já ouvimos no repertório de Toy e Bat for Lashes. E ainda bem que assim é: de facto, um dos trunfos deste projeto será o modo como as duas bandas conseguiram conjuntamente, reestruturar estas canções de modo peculiar o suficiente para assegurarem um propósito concreto. Mesmo a voz de Natasha Khan, que associamos a um registo de canto que pouco terá de irreverente, é aqui tratada de um modo bem visceral e exploratório: vocalizações e melodias assentes em sequências irregulares de fonemas simples, florescem da melhor maneira possível em Heleylos.
Kassidat El Hakka mostra que também as cordas mereceram um pensar que vá além da banalidade com que o “rock psicadélico” se tem imposto nesta década. A guitarra surge moldada de acordo com um tipo de execução segundo o qual se recordam as potencialidades mais diretas do sitar. Este ímpeto de quase expedição pela componente sónica do exotismo oriental, acaba por ser assim filtrado pelas aptidões de músicos europeus e sob os cânones de um contexto cultural discordante com a sua origem. Por maior que seja o interesse dos músicos de Sexwitch pela musicalidade tão enraizada em culturas alheias, importará pensar sobre o tipo de apropriação que ocorre aqui. Ou seja: será legítimo que estas faixas sejam vangloriado pela invulgaridade do seu som, considerando que este constitui um fragmento cultural típico de outros e que – desprovido do seu contexto original – perde o seu real propósito, já que algumas das canções nasceram associadas a uma realidade política própria?

Um exercício complexo em termos éticos, Sexwitch marca mais uma incursão europeia a terreno exterior e uma importação daquilo que, após polimento, se considerou viável para o público do ocidente. Aguardemos então por um momento em que estas duas bandas sejam capazes de criar um repertório original, robusto o suficiente para uma viagem além-fronteiras, sem o recurso a apropriações forçadas.

Sexwitch
“Sexwitch”
The Echo Label/BMG
3/5

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