Os filmes do Queer Porto 1
“Regarding Susan Sontag”, Nancy Kates
“A minha ideia de escritor: alguém que se interessa por tudo”. Esta frase aparece algumas vezes ao longo do filme de Nancy Kates. É da própria Sontag, a ensaísta, romancista, activista, realizadora. O documentário irá percorrer um itinerário pouco inovador no que diz respeito ao cinema, com a utilização de imagens de arquivo, fotografias, citações e entrevistas. O interessante aqui será notar o equilíbrio conseguido entre o retrato de Sontag, a escritora e polemista, e Sontag, a mãe, irmã, amiga e amante. Após uma breve introdução do seu crescimento precoce, o contacto com a filosofia ainda antes da faculdade, a entrada em Berkeley aos 15 anos, o casamento aos 17 e a maternidade aos 19, o filme irá focar-se na itinerância da escritora, dividida entre Nova Iorque e Paris. A realizadora focar-se-á mais no percurso intelectual, com uma passagem pelas obras mais marcantes, em particular os ensaios. É um percurso cronológico, organizado sem ser simplista, que esclarece e ilumina a forma como os combates de Sontag foram sendo uma resposta ao seu meio, ao seu percurso pessoal e aos momentos históricos que vivia. Uma mulher do seu tempo, combativa, para quem o amor pelas ideias não ficava apenas pelo amor pelos livros mas se espraiava ao cinema, à fotografia, às artes plásticas, e a todas as formas de expressão, inclusive aquelas renegadas pela “high culture” e das quais Sontag foi pioneira na defesa. O seu ensaio Notes on Camp ganha aqui um especial enfoque, explicitando a proximidade de Sontag com a cultura queer e a importância dessa proximidade nas suas reflexões sobre cultura. A sua biografia pessoal, sobretudo dos seus intensos romances com outras figuras marcantes do século XX, como a dançarina Lucinda Childs ou a fotógrafa Annie Leibovitz, dão conta de uma figura complexa e contraditória. O escritor enquanto adversário, responsável por opiniões contrárias, apaixonado por tudo, tal como Sontag o definiu, é aquilo que este interessante documento nos traz, ao dar conta, de forma pouco inovadora mas apaixonada, de uma das figuras culturais mais fascinantes e marcantes do século passado, sempre ligada ao seu tempo, e ao introduzir as suas ainda actuais e originais ideias.- Diogo Seno
“The Amina Profile”, de Sophie Deraspe
Em 2011, “se isto não tivesse acontecido, teria havido uma semana inteira de cobertura [dos media à] Síria”, reflecte Andy Carvin a certa altura do documentário. Isto que aconteceu foi mais um dos golpes do fatídico destino ao povo sírio. A activista lésbica sírio-americana Amina Abdallah Arraf, autora do popular blog A Gay Girl in Damascus – relatando as suas experiências no emergente levantamento -, teria sido raptada por forças ligadas a Bashar al-Assad. Em poucos dias reuniram-se milhares de vozes em dezenas de petições e redes sociais clamando pela sua libertação. O escrutínio de quem tentava ajudá-la acabou por revelar que afinal ela era um ele a viver em Edimburgo: o americano de 40 anos Thomas J MacMaster, que então feriava em Istambul com a mulher, revelava-se aborrecido pelo frenesi que lhe perturbava o descanso. Os media receberam uma lição sobre a confiança dispensada a fontes online, e a Primavera Árabe naquele país uma mancha na reputação. Os orgãos de comunicação ligados a Assad depressa ligaram os detalhes do caso – “americano” “gay” “activista” “falso aprisionamento” – à propaganda que tentavam impor: não haveria levantamento algum, mas sim forças ocidentalizantes, os americanos, que estariam por trás da conspiração que tentava derrubar o governo (o governo americano mantinha-se então afastado da situação, estando já em preparação o pacto nuclear com o Irão, aliado de Assad). O orientalista MacMaster apresentou uma justificação altruísta para a farsa: a sua voz ocidental teria mais projecção internacional (no documentário, mais recentemente, admite finalmente uma motivação egoísta, o sonho de escrever romances). Ao porta-voz do povo sírio, junta-se no seu fado a elite de Assad que, como MacMaster, lhe sutura os lábios e a vontade, o Daesh que odeia o seu legado cultural, as suas religiões, a sua liberdade, a Putin que substima a auto-determinação (um artigo recente do NY Times associa o seu desprezo pela voz do povo ao momento em que em 1989 viu a esquadra da temível Stazi em Dresden, onde trabalhava, ser invadida por um grupo de manifestantes). O documentário com imagens de arquivo e reconstituições mnésicas, sendo protagonizado por Sandra Bagaria, a canadiana que durante meio ano acreditou ser namorada de Amina e que lidera as entrevistas com os vários actores do affair, é também nos interstícios sobre as espezinhadas vozes sírias que, como foi com Sandra, não são meritórias de respeito, de existência, da mais ténue consideração de ipseidade. Recomenda-se. – L.R.
“L’Amour au temps de la guerre civile”, de Rodrigue Jean
Na sua última longa-metragem (Hommes à louer, 2008) Rodrigue Jean reunira as entrevistas que ao longo de um ano 11 prostitutos de Montreal lhe concederam numa clínica de acompanhamento e prevenção do VIH. Pelo que leio, os relatos de toxicodependência, sexo, lutas e sonhos desesperados são de uma cadência tal que o espectador acaba por ficar depressivamente habituado à sua exposição. O olhar frio e seco mantém-se, passados seis anos, no ficcionado L’Amour au temps de la guerre civile. Ao longo das duas horas vemos, na mesma cidade, Alex e uma efémera rede de colegas esforçando planos para arranjar a próxima pedra de crack. Não há glamour, como não pode haver. O seu vício comanda e justifica as suas relações, exige o roubo, o tráfico, a prostituição, o perder o tecto. Aquele prazer, minguante por habituação, dá nova razão ao cérebro para partir no seu encalce. O crack dirige o quotidiano e todas as conversas. Ainda resta ali o humano? E a sociedade está lá para o resgatar? Alex insinua a reminiscência da cultura e do amor.
Parece que nos podemos habituar à repetida violência, adoptar a indiferença da câmara perante os sujeitos despidos, mas, na expressão inglesa, aqui pagamos uma portagem emocional (que pesa, no estômago). – Lourenço Rocha

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