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O importante é amar

Texto: RUI ALVES DE SOUSA

Através de um percurso entre imagens, sons e memórias, Manuel Mozos traça uma pequena-grande homenagem ao maior ícone da cinefilia portuguesa.

Falar de João Bénard da Costa é abordar, desde logo, uma figura complexa. À primeira vista, o “comum dos mortais” associá-lo-á ao cinema e, provavelmente, a alguns eventos importantes no que à divulgação do cinema diz respeito (lembremos, antes da Cinemateca, dos vários ciclos realizados no Grande Auditório da Gulbenkian a partir do início da década de 70, ou o programa da RTP No Meu Cinema, em que Bénard da Costa apresentou vários dos seus filmes preferidos).

Contudo, o propósito de Manuel Mozos e deste seu documentário é, mais do que a paixão deste seu protagonista pelo cinema, traçar um caminho poético e emocionalmente grandioso pelas diversas facetas da sua vida. Desde a juventude até ao reconhecimento internacional, Mozos recolheu diversos textos de Bénard da Costa (desde críticas de cinema até a reflexões filosóficas sobre o seu crescimento e a sua maneira muito própria de encarar o mundo), e também imagens suas, e de outros, além da própria voz deste cinéfilo-mor da cultura portuguesa, para conseguir concretizar esta intenção.

É por isso que, além de visitarmos a mente e os diversos amores de Bénard da Costa (passando por excertos dos seus filmes de eleição, onde não poderia faltar a paixão maior que foi sempre Johnny Guitar), ficamos a conhecer também os locais onde viveu e se formou, as experiências que mais o marcaram, e episódios singulares de uma vida especial – daquelas vidas tão impressionantes que raramente temos o prazer de conseguir examinar à lupa.

Não é que Outros Amarão as Coisas que eu Amei seja uma análise extensa e pormenorizada sobre a personalidade de Bénard da Costa, da sua importância para o legado da preservação do cinema, ou até da sua carreira paralela como ator (sob o pseudónimo de Duarte de Almeida), celebrizada por colaborações constantes com Manoel de Oliveira (O Passado e o Presente e A Caixa são disso exemplo). Mas tudo passa, de formas mais ou menos intensas, por este documentário. E Mozos consegue, com esta teia dispersa, mas belíssima, de emoções, reações, memórias e confissões, prestar uma justa celebração a uma personalidade que continua a marcar presença na vida cultural portuguesa – anos depois do seu desaparecimento, nunca os textos de João Bénard da Costa, tão apaixonados e únicos (que revelam, por isso, uma forma única de ver e sentir o cinema e a vida), deixaram de nos emocionar, de nos encantar, ou de ir ver e rever os mesmos filmes sempre com novas perspetivas.

O contexto da estreia comercial deste singelo tributo não poderia ser mais certeiro: a relação entre o cinema e os seus espectadores tem sofrido imensas mutações, e são inúmeros os debates e dúvidas levantados pela cada vez mais dominante imposição dos mercados “alternativos” de consumo de filmes. Era o próprio João Bénard da Costa que dizia pertencer a uma “geração que viu o cinema antes de se fecharem as salas dele” (algo que ouvimos ser dito no documentário).

De João Bénard da Costa fica a beleza das palavras, inscritas em crónicas de jornais e nas inesquecíveis folhas da Cinemateca, e permanece também um amor enorme ao cinema, que merecerá ser sempre estimado e reconhecido por todos os que aprenderam com os seus ensinamentos. E numa época em que o cinema se faz cada vez menos nas salas, vale a pena conhecer, ou reencontrar, um cinéfilo que fez tudo para que a magia do cinema não desaparecesse. Outros Amarão as Coisas que eu Amei é o filme sobre os filmes, e sobre tudo o resto que ele amou, e que nós todos precisamos de continuar a amar.

João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que eu Amei
Realizador: Manuel Mozos
Distribuidora: Alambique

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