Trincar uma madalena norueguesa
Texto: PEDRO GARCIA
Poucas vezes um livro tão rico em pormenor nos cativa com descrições detalhadíssimas tanto sobre caves de masturbação ou passagens sobre fenomenologia da arte. Karl Ove Knausgaard deslumbrou em todo o mundo com a série A Minha Luta, sobre a sua própria vida, um projecto iniciado aos 39 anos. A Morte do Pai é o primeiro tomo e arranca com a adolescência do autor com a Noruega dos anos 70 e 80 como pano de fundo, capaz de conciliar a expressão dos desejos e ansiedades de um jovem rapaz com reflexões sobre a morte, os relacionamentos dentro da família, as tensões entre irmãos, pais, namoradas. É um Em Busca do Tempo Perdido aggiornato, com sexo um pouco às apalpadelas (pun intended), com bebedeiras furtivas e com um lado que agora nos parece hip: o da música alternativa e do individualismo romântico.
O pai, o seu carácter, incapacidade de expressar emoções, algum sadismo maldoso, e o peso que impõe aos seus dois filhos rapazes, Yngve, o primogénito, e a Karl Ove é o fio que liga as duas únicas divisões estruturais do tomo. O crescimento com o pai e a progressiva degradação do próprio como ser humano digno são descritas juntamente com a vida de Knausgaard nos anos 70, 80 e 90, as dores de crescimento de um adolescente do seu tempo, a descoberta da música como agregadora de tribos, as primeiras investidas sexuais à la cinematografia teen americana, as ingenuidades e os esforços de pertença. A natureza brilha como pano de fundo e traz ao leitor uma Noruega feita de rios, fiordes, montanhas, caminhadas nos bosques, árvores de fruto, chuvas estivais, a abundante neve no Inverno.
Esta não é uma narrativa torrencial, termo que identifica geralmente livros maus e pouco trabalhados. Ao contrário de Em Busca do Tempo Perdido, não há evocações místicas e difusas das memórias: nenhuma das memórias de Karl Ove Knausgaard nos parece emergir de uma qualquer madalena saudosista. O livro vive de uma riqueza de detalhe e de uma sensação de que a vida, em toda a sua clareza e sombra, está ali, a vida de um ser no seu espaço e no seu tempo. Nada é simplista e muito menos sentimental. Karl Ove Knausgaard mostra-se: isto sou eu, a esta luz, foi o que senti, com uma pormenorização que dá espessura à realidade.
A Minha Luta 1: A Morte do Pai, Karl Ove Knausgaard, Relógio d’Água. Tradução do norueguês de João Reis.

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