Um conto de fuga
Texto: DIOGO SENO
Praia do Futuro, estreado o ano passado na Berlinale e apresentado este ano entre nós na abertura do Queer Lisboa 19 e encerramento do Queer Porto 1, a quinta longa-metragem de Karim Ainouz, é um conto de “fuga”, um “desejo de aventura”. Fazem parte da narrativa elementos reconhecíveis de outras obras queer, mas a mestria formal de Ainouz, bem como os seus actores, elevam o filme a alturas que apenas a espaços outras obras alcançavam.
A elegância “literária” da sua estrutura tripartida poderia funcionar contra o filme, mas o comando narrativo impede isso de acontecer. A primeira parte desenrola-se no Brasil, na praia que dá nome ao filme, e nas paisagens circundantes. E começa tudo, como vai acabar, de forma inesperada. Dois homens percorrem as dunas de mota, mergulham no mar, e um afoga-se. Donato (Wagner Moura) salva um deles, Konrad (Clemens Schick) e com ele se envolve sexualmente, ainda decorrem as buscas do primeiro. É a primeira elipse abrupta. Não recuperamos deste choque, pelo que o resto do filme se vê em sobressalto (e mais elipses, algumas ainda maiores, se seguirão).
A fisicalidade desta primeira parte vai definir em furtivos olhares, com a interacção de Donato com o seu pequeno irmão e os seus colegas, com a presença de alguns elementos e com o que fica por dizer, estas personagens – é a âncora narrativa.
A presença do mar revolto é a impressão maior desta primeira parte, diversas cenas decorrem dentro ou à beira dele. O sentido de desorientação, o lugar fora do tempo, o constante movimento (e a mestria técnica destas cenas é de nota), ajudam a definir o tom físico do filme.
Já as praias filmadas em planos longínquos, alternadas com as cenas aquáticas, as panorâmicas nas praias e da arquitectura urbana e industrial, contribuem para a forte sensação de lugar que perpassa todo o filme, de formas diferentes em cada capítulo. A fotografia de Ali Olcay Gozkaya, brilhante também no trabalho da cor, é deslumbrante.
A segunda parte (outra enorme elipse), encontra Donato e o seu namorado alemão em Berlim. Longe da praia, longa da família, desempregado, este começa a duvidar da sua continuação na cidade. Assistimos ao consolidar desta relação que surgiu a quilómetros de distância, agora na paisagem cinzenta e urbana da cidade alemã. Em cenas parcas de diálogo mas abundantes em olhares cúmplices, muito fica por dizer, tal como em todo o filme. A entrega dos actores (óptimos ambos) à câmara, ao olhar de Ainouz, a proximidade deste com estes corpos, criam uma segunda parte emocionante e que deixa marca, por causa dessa entrega. A música também é aqui usada de forma perspicaz para definir estas personagens e a sua relação, sobretudo em duas cenas, uma em que eles cantam para o espectador e outra em que dançam, se libertam, numa discoteca, dúvidas dissipadas.
A terceira parte, o maior salto narrativo do filme (vários anos), vai confrontar Donato com as suas escolhas e a sua fuga. Torna-o o fantasma alemão ao reencontrar-se com a família que abandonou, na figura do irmão que o adorava. Terceiro grande actor de Praia do Futuro, Jesuíta Barbosa, a compor um trio de personagens, levando o filme para o território que pretendia realmente explorar: o da coragem e o das escolhas que moldam os nossos percursos. Embora não se definam em termos claros, os temas do filme ganham corpo devido à emoção subterrânea que perpassa os três capítulos. A abordagem formalista do filme poderia resultar num mero exercício de estilo, mas essa corrente de emoção, a entrega dos actores, a utilização das elipses e dos silêncios, a mestria técnica e visual do filme (são vários os planos memoráveis), fazem de Praia do Futuro um belíssimo filme sobre a constante viagem que empreendemos. E é na estrada, de mota, que estas personagens, e este filme, num plano assombrado e assombroso, nos deixam.

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