Os fardos das memórias coloniais
Texto: JOÃO SANTANA DA SILVA

Freud e o cristianismo têm que se lhes diga. Em ambos, a presença da mãe e do pai é um fardo pesado de carregar até à morte. Isto porque quem “dá vida” espera sempre algo em troca. Há quem diga mesmo que se leva uma vida inteira a tentar desvendar o que fazemos neste mundo e a tentar compensar esse empréstimo de vida dado pelos progenitores, dedicando todo o tempo à segunda demanda e nenhum tempo à primeira. Normalmente, não se tem sucesso em nenhum e morre-se sem se conseguir libertar desse fardo. Não há nada pior do que esse peso na alma.
As memórias coloniais têm muito desse mesmo fardo. Quer para quem fez parte do contingente de “colonizadores” – mesmo quem ignorava essa “missão civilizadora” que se foi renovando e tomando novos nomes e máscaras –, quer para os “colonizados”. Isabela Figueiredo, nascida em Lourenço Marques (a atual Maputo) em 1963, pertenceu ao primeiro grupo. Um grupo que dominava a sua cidade, o seu país, a sua fortaleza longe da metrópole, mas que não pensava que pudesse ser de outra forma. Até porque, diz Isabela no seu Caderno de Memórias Coloniais em autocrítica irónica, “os pretos eram preguiçosos, queriam era passar o dia estendidos na esteira a beber cerveja e vinho de caju, enquanto as pretas trabalhavam na terra, plantavam amendoim ao sol, suando com os filhos às costas, ao peito, e a enxada a subir e descer. Preto era má rês. Vivia da preta. Não pensava na vida, no futuro, nos filhos. Só queria descansar, dormir, dançar, cantar, beber, comer, viver vida boa.” Os colonizadores dormiam descansados à noite. Faziam o seu dever e iam para casa com a sensação de missão cumprida. O fardo, nessa altura, pesava pouco. Ou, pelo menos, estavam à altura.
Apesar de viver fora do centro de Lourenço Marques – na zona da Matola –, Isabela Figueiredo estava, ainda assim, em boa posição para sentir o pulso à sua sociedade, a sociedade dos brancos. Os membros desta sociedade tinham um código de conduta própria em todos os sentidos: não só era o seu, como era o “apropriado”, e, como tal, devia ser seguido por todos, quer fossem brancos ou pretos. É por isso que, embora olhassem para o lado (também não era de bom tom fazer escândalo no bairro), as mulheres brancas desprezavam as negras, já que era com elas que os homens brancos fugiam à monotonia da sua condição dominante e socialmente estratificada.
Era com elas que os brancos procuravam algum prazer para si, e nelas que descobriam o prazer alheio. Sobretudo o prazer alheio, já que, todos sabiam, “uma branca cumpria a obrigação”, enquanto a negra tinha o desplante de sentir prazer. “As pretas não eram sérias” por essa mesma razão, “as pretas tinham a cona larga, as pretas gemiam alto, porque as cadelas gostavam daquilo. Não valiam nada”. Era sabido e ensinado. Porque se haveria de pensar de outra forma?
Num império pós-escravatura (e até pós-império), as relações comerciais, sociais e laborais continuavam a reproduzir as velhas dinâmicas do tempo do engenho e da plantação. Já não eram relações de propriedade que ligavam o branco ao negro, mas continuava a ser uma relação servil, colada à bruta e como se podia, com o cimento do racismo. E é esse o maior fardo da autora. O fardo de um racismo colonizador, de um paternalismo na sua forma mais violenta, com o colonizador a bater no trabalhador negro e a dizer-lhe para não faltar ao trabalho, enquanto mete uma nota na mão da mulher. E este é um fardo, na sua forma mais cristã, que é personalizado no pai de Isabela. Tal como um pecado original, um paraíso perdido, o pai é a origem de tudo: da vida, da vergonha, da saudade, da culpa, do amor e do ódio.
Um dos aspetos mais importantes do Caderno de Memórias Coloniais é a omnipresença do sexo, quer seja da virilidade do pai, quer da descoberta sexual da jovem Isabela. E que não é dito por meias palavras. “Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi, mas via-se. […] Quando o meu pai me levantava no ar como se fosse uma coisa, ou me transportava às cavalitas, sentia-me fraca perante a força total, dominada, possuída por ela.” A correlação entre sexo e colonialismo é um dos elementos mais fortes do livro, com um enorme potencial de desdobramento em múltiplas teses académicas. O macho alfa branco que ensina os negros não só a trabalhar mas a cuidar da sua família, a trabalhar para a família, para entregar o dinheiro à mulher. A estrutura patriarcal estava em Lourenço Marques, mas fazia-se sentir, sobretudo, na alma de cada um.
E não havia momento em que esse paternalismo mais se fazia sentir do que quando os brancos eram “bons”, quando tratavam “bem” os colonizados. Como, por exemplo, a figura de Manjacaze, o velho criado do prédio Lobato, que cuidava de quase tudo no edifício e, sobretudo, levava o lixo para longe. Era ele que fazia desaparecer o lixo dos brancos. Para onde? Ninguém sabe. “Não queríamos saber disso. Éramos brancos, queríamos lá saber o que faziam os pretos ao nosso lixo, desde que desaparecesse.” Pela sua dedicação, Manjacaze, que era quase um avô para algumas crianças, recebia assim “as sombras do pão do dia anterior, restos de comida, a roupa rasgada, velha, que tinha deixado de nos servir. De vez em quando, porque éramos católicos e bons – Páscoa, Natal, Entrudo – uma garrafa de vinho ou aguardente, uns fritos da minha mãe.” Assim, por ser bem comportado, tinha direito a de tudo um pouco que pingava por entre as frestas dos excessos dos colonos. Mas tudo era dado “com altruísmo ao preto bom, ao preto que vergava as costas e a cabeça numa vénia, quando nos via, e que era simplesmente bom, um bom preto.”
A própria Isabela adulta procura expiar os pecados da Isabela criança. Como, por exemplo, na escola, quando a colega Marília, que era mulata (e, por isso, não era branca), fez qualquer coisa que a irritou. Já não se lembra, mas podia ser por qualquer motivo ou até por nenhum motivo de todo, porque o branco não precisava de razão para bater no preto. “Podia perfeita e impunemente bater-lhe. Era mulata. E a rapariga comeu e continuou de pé, sem se mexer, com a mão na cara, sem nada dizer”. Era um exercício de poder. Tinha visto fazer e percebia a hierarquia, mas não compreendia bem porquê. Só sabia que não havia razões para não ser assim.
Quando o 25 de Abril veio, e quando começaram a revoltar-se os colonizados, tudo mudou. E tudo se manteve na mesma. As estruturas mantinham-se,a tensão também e a violência também, mas já ninguém mandava em ninguém como antes. No entanto, a identidade colonial não se perdia. Não havia de forma de ninguém se esconder. “Ou se era colono ou se era colonizado, não se podia ser qualquer coisa de transição, sem um preço, a loucura no horizonte.” E entretanto, a violência propagava-se, à mistura com uma quase inocência de quem florescia num mundo novo. Jogava-se à bola com a cabeça dos colonos e pessoas desapareciam. A vida continuava. Mas agora eram outros a ter medo.
O Caderno de Memórias Coloniais, na estreita ou inexistente fronteira entre o género das memórias pessoas e o da ficção, constituiu-se como um dos livros mais importantes sobre a experiência dos portugueses em África no século XX, sobretudo depois do desenvolvimento urbano de cidades como Luanda e Maputo (então, Lourenço Marques). Desde a sua primeira edição em 2009 (pela Angelus Novus), está ao lado de livros como O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, na lista dos melhores livros o século XXI sobre o colonialismo. Mas, mais do que isso, equipara-se a este último como uma obra extremamente bem escrita e desassombrada, quer na linguagem quer na forma como encara de frente, qual pega de caras, o passado e o fardo de quem colonizou outra parte do mundo.
A própria linguagem forte, que chocou alguns, é a forma de dizer que este assunto não se trata com pinças. Os relatos da violência – física, verbal e social – dos colonos sobre os colonizados também ofenderam outros, que achavam que isto não era um traço caraterístico do tratamento dado na mais cosmopolita Lourenço Marques, mas sim uma decorrência dos brutos analfabetos do campo, na Matola e no Alto-Maé. Tudo é fumaça. O Caderno de Memórias Coloniais, reeditado em 2015 pela Caminho, é um livro a ser lido por todos os portugueses, mais tarde ou mais cedo. E é isso que fica, quando a poeira assentar.
Isabela Figueiredo, neste livro, teve assim oportunidade de dizer que “o meu pai não me arrancou ao que eu era nem ao que pensava; o meu pai não foi capaz de formar o meu pensamento. O meu pai não me dobrou. Escapei-lhe.” Isto é, que fugiu a esse legado. Que o carrega, mas que não é o seu. É o do pai. É o da colonização, da qual é filha mas não autora. Ou talvez o Caderno fosse apenas uma forma de pedir desculpa à Marília pela bofetada prepotente que lhe deu, e que não voltaria hoje a dar. “Não esqueci o rosto esguio e o belo cabelo crespo da Marília. Era mulata e não podia bater-me. Não me lembro se cheguei a pedir-lhe desculpa. Acho que não.”
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