José Fonseca e Costa (1933-2015)
Texto: RUI ALVES DE SOUSA
José Fonseca e Costa contava que começou a amar o cinema no final da década de 40, quando descobriu O Terceiro Homem. O filme de Carol Reed e a história de mistério que tão bem o caracteriza, assinada pelo genial Graham Greene, mais as inesquecíveis interpretações de Joseph Cotten e de Orson Welles (não esquecendo também a pitoresca banda sonora de Anton Karas) fizeram as delícias do cineasta na sua juventude – e foi a partir daí, dizia ele, que tudo mudou.
Algum tempo depois de se mudar para Lisboa (nasceu e viveu em Angola, nos primeiros anos da sua vida), quis entrar em Direito, mas o cinema levou a melhor: a paixão nunca o abandonara entre os afazeres vários da vida estudantil, e por sua causa deixou a licenciatura. Andou por cineclubes (sendo membro da direcção do Imagem) e, por essa altura, iniciava-se como crítico de cinema, assinando colaborações em várias revistas da época. Traduziu livros (como o da teoria do cinema de Sergei Eisenstein, mas também romances), e viu recusada a sua candidatura à vaga de assistente de realização na recém-criada RTP (apesar de ter sido classificado em primeiro lugar).
Anos mais tarde, em 1961, tem a oportunidade que vai marcar a sua carreira, como assistente de Michelangelo Antonioni durante a rodagem de O Eclipse. Admirava o método do cineasta italiano, e com ele aprendeu muito do que seria essencial para a obra que começaria a desenvolver na década seguinte.
Ao regressar a Portugal em 1964, realizou um vasto número de pequenos filmes publicitários e documentais. Na ficção cinematográfica estreia-se com O Recado, retrato da situação do país início da década de 70, lançado em pleno Estado Novo. Depois da revolução e em pleno Verão Quente, assina Os Demónios de Alcácer Quibir, um filme fortemente marcado pelos acontecimentos desse ano: das referências ao colonialismo a um tom revolucionário que ficam como marcas daquele tempo.
Continua tanto nos documentários como em alguns projetos televisivos, decidindo mudar de rumo e esquecer o cinema militante do auge do PREC (e da sua longa anterior). Os anos 80 serão o período mais fulgurante da carreira de José Fonseca e Costa, com vários êxitos de bilheteira que marcam a criação de um cinema comercial raramente concretizado em Portugal (um cinema popular sem facilitismos e com originalidade narrativa e visual).
O primeiro desses sucessos é o maior de toda a sua filmografia: Kilas, o Mau da Fita abre a década em grande, permanecendo mais de um ano em exibição numa única sala de Lisboa, o agora extinto multiplex Quarteto, esgotando sessão atrás de sessão – e tornando-se, na altura, no filme português mais visto de sempre. A comédia, protagonizada por Mário Viegas e com música de Sérgio Godinho, fala-nos de um vigarista e das suas andanças por uma Lisboa entre o capitalismo e o comunismo. Um filme feito com poucos meios, mas que foi recompensado por um culto que se manteve com o passar dos anos.
Ainda nos oitentas vale a pena assinalar um filme curioso, baseado num conto de David Mourão-Ferreira: Sem Sombra de Pecado (1983) é sem dúvida um dos filmes mais bem conseguidos de Fonseca e Costa. Intriga romântica entre um soldado e uma mulher misteriosa, que mistura humor e o drama das estruturas do poder militar na época do Estado Novo, é uma pérola que merece ser revisitada em sala ou em DVD. Igual oportunidade merece Balada da Praia dos Cães, realizado três anos depois. Adaptação do livro homónimo de José Cardoso Pires, tem Raul Solnado num surpreendente papel dramático e uma história fascinante sobre os meandros da polícia e da PIDE no tempo da ditadura.
A terminar a década, lançou A Mulher do Próximo (1988), comédia de costumes com alguns dos ingredientes dos filmes anteriores. Já nos anos 90, chegaram o raríssimo Os Cornos de Cronos (1990) e Cinco Dias, Cinco Noites (1996). É um filme que se baseia num romance de Álvaro Cunhal (sob o pseudónimo de Manuel Tiago), e que aborda a questão da emigração clandestina durante o salazarismo. Note-se, a título de curiosidade, que era um título do cinema português que outro realizador, Manoel de Oliveira, apreciava particularmente, pela candura da realização e das personagens do filme, como confessou a Ana Sousa Dias numa entrevista no célebre programa Por Outro Lado.
Nos anos 2000 saíram dois filmes tidos como menores na sua filmografia: O Fascínio (2003) e Viúva Rica Solteira Não Fica (2006), onde regressa a mecanismos já presentes em outros filmes mais célebres. E deixa um novo filme, Axilas, por terminar – a rodagem só parou há duas semanas, quando o realizador foi internado no Hospital de Santa Maria.
O cinema de Fonseca e Costa é um cinema de mulheres, de tramas com e sem plot twists e com uma minúcia na construção da narrativa que o caracterizou como um dos melhores contadores de histórias do cinema português. Não fez todos os filmes que queria, sendo vítima de um sistema cultural injusto e desequilibrado. Mas conseguiu, em certos momentos, encontrar o sucesso num país em que o cinema será sempre visto como uma eterna dicotomia estereotipada, separada entre os “filmes de autor” e os “filmes que ganham dinheiro”. O realizador foi além dessa ridícula divisão. Nunca abdicou da sua criatividade em função do lucro, mas conseguiu apelar ao público com a sua própria visão do mundo e do cinema. São poucos os que conseguem fazer isso, nos tempos que correm.
Antes de desaparecer, deixou ao produtor Paulo Branco as instruções necessárias para se concluir o seu “canto de cisne” da forma como o concebeu. Morreu no domingo, aos 82 anos.

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