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A expedição eletrónica de VV Brown

Texto: ANDRÉ LOPES

Quando se estreou com “Travelling like the Light”, pouco poderia antever uma viragem de sonoridade como aquela que VV Brown assumiu a partir do segundo disco. A expedição à vertente mais noturna da pop eletrónica mantém-se em “Glitch”.

Em 2009, sabíamo-la como uma figura disposta a caminhar por um trilho artístico que combinava a sensibilidade melódica dos grupos femininos da década de 60, com um flirt para com as sonoridades associadas à Motown. No disco de estreia, VV Brown fazia ouvir-se como uma artista energética que encontrava o seu dinamismo em canções indie-pop apaixonadas (como então era recorrente) por um sentido estético retro. Com Samson & Delilah (2013) muito mudou: a fixação com sons do passado deu lugar a uma vontade evidente de explorar possibilidades menos datadas. Esse disco, de eletrónicas cerradas não muito distantes dos momentos mais introspetivos (mas menos ambiciosos) de Annie Lennox, assegurou-nos que afinal, pouco sabíamos sobre os ímpetos criativos de VV Brown. Glitch faz tudo o que está ao seu alcance para provar a quem considerou esta artista como uma nova coqueluche, que essa foi uma conclusão precipitada. Mais: este é um álbum que nos força a assumir um posicionamento de fragilidade diante de uma artista no pico do seu período criativo

Com um grafismo luminoso, Glitch é mais uma vez uma armadilha: nada se tornou mais simples e muito pouco por aqui será convidativo para quem se deixou deslumbrar pelas melodias luminosas de outrora. A exploração do som, por via de sintetizadores e ritmos que não se distanciam assim tanto do que tem garantido o protagonismo a FKA Twigs. Para além disso, VV Brown trabalha a voz de uma forma que lembra Shannon Funchess (Light Asylum), num registo quase andrógino. De resto, a banda de Brooklyn serve aqui de inspiração evidente para um conjunto de faixas que prima por uma robustez sonora que ocupa o alinhamento de forma transversal. Ao longo do mesmo, há oportunidade para explorar as alianças entre o canto gregoriano e o downbeat, para relocalizar a pop eletrónica da Europa do Norte para um contexto aparentemente afável, mas que nunca se dilui num sentido de imediatismo. Esse, é sabotado por uma voz que não se propõe a reconfortar, mas sim a proferir uma série de versos cuja vitalidade seria colocada em causa perante a ausência de uma sonoridade consistente

Sentem-se ecos de iamamiwhoami em Fractured e Ultraviolet; já Instincts e Money Power Sex são reflexos de uma atenção por parte de VV Brown ao que se tem feito no campo do hip hop, especificamente naquilo que diz respeito aos maneirismos do trap. Disfarçadamente e ao longo da segunda metade do álbum, surge uma interessante lição sobre os esquemas que podem alicerçar canções pop apetrechadas de uma electrónica longe de banal, e que eventualmente procuram o caminho certo para a pista de dança. E este é encontrado: Shift é o single de apresentação do disco e a escolha é inteiramente acertada. Techno, palavra falada e sintetizadores pulsantes expandem-se por aqui e sem limites impostos. É esta a matéria principal de Glitch.

Por vezes comparada com Grace Jones, VV Brown continua com o terceiro álbum num caminho que de facto encontra paralelo na transição entre a fase disco da artista jamaicana e o seu período de diálogo virtuoso com a new wave. No caso de Glitch, nada soa banal, graças a uma coleção de faixas que pedem audições repetidas, ao saberem integrar as suas diversas influências de um modo que assegura plena coerência.

VV Brown
“Glitch”
YOY Records
4/5

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