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Quem é que vão chamar?

Texto: DANIEL BARRADAS

Há um delicioso fantasma dos anos 80 a assombrar a música dos suecos Deportees. O novo álbum tem por título “The Big Sleep” e pode revelar boas surpresas…

The Big Sleep é o quinto álbum dos suecos Deportees mas, considerando que é uma banda praticamente desconhecida em Portugal, bem pode ser o primeiro que quem me lê irá depois ouvir. Assim sendo, convém avisar que há um fantasma que aparece quando se ouvem os Deportees e mais vale que o exorcizemos logo: a voz do vocalista tresanda a Talk Talk. Os mais esperançosos pensarão: “O Mark Hollis voltou a cantar?!”. Os mais distraídos podem supor que houve um disco qualquer dos Talk Talk circa 1985 que nunca tinham ouvido. Mas não, são “só” os Deportees.

Que as canções também tresandam a anos 80 é verdade mas, como bem se pode ouvir, os 80 são uma mina sonora onde ainda vale a pena ir cavar.

The Big Sleep não apresenta nenhum potencial êxito radiofónico como Islands & Shores, a canção que dava o título ao álbum anterior, mas é um conjunto de canções muito mais uniforme e bem musculado. Talvez nenhuma delas se destaque a uma primeira audição mas há motivos mais do que suficientes para pôr o álbum a rodar repetidamente e, às tantas, Love me like I’m gone já trepou para a mesma prateleira onde arrumámos Such a shame dos já mencionados Talk Talk. É épica, é intima e cura dores de coração enquanto nos dá energia para lavar as janelas lá de casa.

É que o que há de bom neste disco é precisamente aquilo que havia de bom nos anos 80: uma leveza pop em que a alegria está sempre salpicada com pozinhos de tristeza e onde a brilhante superficialidade esconde uma ligeira angústia existencial. Começa logo com a capa onde nos mostram uma praia coberta por nuvens de tempestade. Mas atente-se a Dark Horse, que junta umas percussões e guitarra de saborzinho tropical com uma letra que diz “Making sure someone knows that I’m breathing / I got this feeling that your floor is my ceiling / You’re dancing in high heels”. Ou os primeiros segundos de Born to be loved em que alguém bate vigorosamente num chocalho e numa caixinha chinesa mas, ainda mal o nosso cérebro pensou “Lambada!”, lá vem uma pincelada de uma guitarra ensopada em eco e distorção, como que tocada à beira de uma falésia ao pôr do sol.

Se por esta altura estão a pensar que isto soa tudo um bocadito foleiro, acertaram. É que os anos 80 tinham precisamente a devida dose de foleirice. Quem se inspira neles tem que aprender a cozinhar as suas canções com esse tempero. O que redime os Deportees é que têm mão segura no frasquinho que usam para polvilhar a dita pelo álbum todo.

Escrevo este texto para vos dar um conselho: deixem este álbum entrar na vossa vida. Não é nada para partilhar com os amigos, mas é um disco que será o vosso melhor amigo quando houver janelas para lavar ou uma longa viagem para fazer num autocarro. Naquelas noites em que estão sozinhos em casa e precisam fazer dança interpretativa para exorcizar fantasmas interiores, quem é que vão chamar? Este disco.

Deportees
“The big sleep”
2015 Universal Music sob licença de Deportees
3/5

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