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Zola Jesus em busca de uma tribo que a aceite

Texto: ANDRÉ LOPES

É presença frequente em palcos portugueses, mas isso não demove os seus admiradores de se reencontrarem com a artista que tem vindo a trilhar um caminho que cada vez mais se afasta daquilo com que nos cativou em primeiro lugar.

Foto: Francisco Gonçalves Silva

Diante de uma plateia preenchida na medida certa, a apresentação de Taiga (2014) foi o principal pretexto para a atuação de Zola Jesus no Musicbox no passado dia 3 de novembro. Mas permitiu mais, já que foi por aqui que descobrimos a nova forma com que a música do projeto se quer dar a ouvir atualmente. O modo como a sonoridade de Zola Jesus tem amadurecido ao longo dos cinco últimos mostra que o charme melódico e de texturas conseguido com Stridulum (2010) não foi aprofundado, mas antes trocado por sons mais expansivos, menos claustrofóbicos.

Ao vivo, Zola Jesus fez-se acompanhar por dois músicos responsáveis por eletrónicas, manipulação de pré-gravações, teclas, percussão e trombone de varas. É esse último o instrumento que mais se faz notar em palco, não porque esteja devidamente integrado em todas as canções que ouvimos esta noite, mas porque a sua inclusão em faixas que originalmente se construíam a partir de uma relação tão íntima entre synthpop e dinâmicas industriais, não resulta em pleno. Se em Hunger os sopros são executados de uma forma congruente com os ritmos propostos (tal como acontece no álbum), o novo arranjo de Night que substitui quase por completo o conforto que os sintetizadores originalmente davam à melodia, é no mínimo, incómodo. Sem metal, mas com um irritante stacatto de teclas, Sea Talk passou de uma das faixas mais assombrosas de Zola Jesus, para um momento quase risível fruto de um qualquer desenfreado desejo de renovação artística.

Se quando em 2009 a artista não se conseguia dissociar da baixa-fidelidade pelo conforto que esta lhe garantia (basta ouvir a forma como a melodia era a última das prioridades em discos tão subterrados em texturas corrosivas como New Amsterdam, Tsar Bomba ou The Spoils), a confiança ganha nos lançamentos seguintes fez de Zola Jesus uma força criativa sem medo de experimentar. Em concerto, sentimo-la a atuar num palco demasiado pequeno para as suas ambições e ímpetos, cuja visceralidade se fez sentir na forma como encara o público e o espaço de performance. Cantando o início de Nail sem recurso à amplificação do microfone, Zola Jesus lembra-nos que mais do que uma especial sensibilidade (cada vez mais esquecida) para o pensamento de melodias, a sua voz é de uma potência única, tanto em termos de timbre, como de intensidade.

Para lá da voz, sobrou um alinhamento apoiado nas canções formulaicas de Taiga, onde uma introdução a dois instrumentos acaba por dar azo a um momento de estridência percussiva que, faixa após faixa, perde a novidade e deixa de cativar. Circulando pelo meio da plateia ou insistindo contra um prato de bateria no final da atuação, Zola Jesus deixou assente que aprofundar a sonoridade que mais mérito lhe deu até ao momento não será uma opção a considerar, já que o instinto para a permanente reconstrução da sua sonoridade parece ser algo que vai perdurar.

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