Últimas notícias

Quando o cinema incomoda

Texto: NUNO GALOPIM

“É Difícil Ser Um Deus”, do russo Aleksei German, é uma das experiências mais bizarras, incómodas e envolventes que o cinema de ficção científica nos deu a ver nos últimos anos. Sim, de ficção científica.

Poucas vezes o cinema consegue intrigar, perturbar ou até mesmo incomodar como o mostra É Difícil Ser Um Deus, de Aleksei German. Baseado no romance homónimo de 1964 de Boris e Arcadi Strugatski – os mesmos autores do livro que inspirou Stalker, de Tarkovski –, embora despindo a trama a uma lógica que quase esconde a narrativa entre os gestos, falas e atitudes das personagens, É Difícil Ser Um Deus é, na sua alma mais profunda, uma obra de ficção científica. Leva-nos a um mundo distante, em tudo semelhante à Terra, mas vivendo como na Idade Média, num tempo em que uma milícia combate as vozes do conhecimento, vetando àquele mundo os tempos de transição para o renascimento que, entre nós, conduziria mais tarde a cultura ocidental a uma outra iluminação. Tendo como protagonista um emissário terrestre, que ali se dilui entre os autóctones assumindo a pele de um senhor da guerra com o nome de Don Rumata, o filme faz-nos mergulhar num mundo onde, apesar dos corpos e das construções nos serem familiares, tudo o mais é estranho e inexplicável. Alienígena, portanto! Por mais uma vez – como nos mostrou recentemente Jonathan Glazer no igualmente intrigante Debaixo da Pele – não estamos perante um povo alienígena com o qual até podíamos tomar uma bica e falar do jogo da véspera.

Este foi o último filme de um dos nomes maiores da história do cinema russo, todavia sem a expressão e reconhecimento que o tempo concedeu a figuras como Eisenstein, Tarkovski, Paradjanov, Sokurov ou, mais recentemente, Zviagintsev. Como Malick (antes de encontrar um ritmo regular de produção depois de A Árvore da Vida), também German foi um autor bissexto, a sua filmografia somando apenas cinco longas-metragens entre 1971 e a estreia póstuma de É Difícil Ser Um Deus (incluindo a sua obra uma sexta longa, de 1967, coassinada com Grigori Aronov). O facto de muita da sua obra olhar diretamente sobre a vida russa, refletindo frequentemente ecos do estalinismo, talvez justifique a comunicação reduzida que este cinema conquistou fora das suas fronteiras linguísticas, culturais e políticas. Cabe por isso a É Difícil Ser Um Deus o papel de o mostrar de outra forma. Com algo que vem de mais longe, sem aparentes códigos de tempo e contexto que impeçam a comunicação. Pelo contrário, as memórias de vidas talhadas pelo medo, da imposição dos regimes pela força, e até mesmo do modo como os regimes de Hitler e de Estaline purgaram intelectuais e vozes pensando no sentido contrário, servem de linguagem comum a uma proposta que, depois, pode partir rumo a algo mais distante e estranho…

Filmado a preto e branco (sob uma espantosa direção de fotografia), revelando uma art direction que vinca o estarmos num lugar diferente de tudo e uma mise-en-scéne que sabe acentuar, pelo bizarro, o desconforto, a instabilidade, a presença sempre próxima da morte, É Difícil Ser Um Deus é uma experiência que, como agora se diz, é realmente “imersiva”. Mais do que acompanharmos a evolução de uma trama, somos antes colocados num lugar que não conhecemos e perante figuras que não imaginamos quem sejam. Há lama e mais lama, águas da chuva e outros fluidos, dejetos, animais ora vivos ora mortos, homens enforcados e uma permanente sensação de arrepio. Têm hábitos invulgares (para nós, seres humanos do século XXI) e uma relação intensa com os cheiros (apesar de tudo aquilo nos parecer, a nós, terrestres, nauseabundo)… Numa sucessão de situações, que muitas vezes a câmara acompanha em planos de sequência, aos poucos vamos descodificando o que à partida poderia parecer uma composição meramente abstrata. Não que as três horas do filme façam emergir em nós a perceção de uma linha narrativa tal como aquelas experiências de olhar para imagens nas quais outras se desvendam pela concentração do olhar. Sem roubar à alma do filme a sua identidade, a progressiva familiaridade que vamos talhando com as imagens destaca personagens – como a de Don Rumata, de um aliado seu, da sua amada ou de Don Reba, que tenta tomar o poder pelo medo – e tomamos consciência do estado de assalto ao conhecimento por milícias cinzentas e negras (que não escondem ter por modelo as camisas castanhas e negras da Alemanha nazi).

Aleksei German tinha há muito vontade de levar o livro dos irmãos Strugatski ao cinema. Chegou a ter a ideia em mente a ponto deste poder ter sido o seu primeiro filme e teve inclusivamente reuniões com um dos escritores com vista a um trabalho conjunto de adaptação, mas o mapa político russo então não ajudou. E convenhamos que uma história de poder imposto pela força não era o que os cofres financiadores do Estado mais gostariam de ver num ecrã depois da entrada dos tanques soviéticos em Praga. O filme, assim sendo, não aconteceu. Como não aconteceram as várias tentativas seguintes, tantas vezes infrutíferas que o fizeram mesmo chegar a ver a adaptação (menor) que Peter Fleishermann realizou em 1989. Quando o projeto ganhou finalmente uma guia de marcha no ano 2000 foi quase tão longa a sua produção quanto o tinha sido a espera, com a rodagem a estender-se por anos a fio entre um castelo na República Checa e um estúdio em São Petersburgo, ao que se seguiu um processo de montagem igualmente tão moroso que coube ao filho do realizador o papel de a terminar após a morte de Aleksei German, em fevereiro de 2013. A estreia aconteceria meses depois, no Festival de Roma.

Para quem ficou com a expressão “ficção científica” a ressoar de forma a eventualmente não encaixar neste universo vale a pena deixar claras algumas ideias. Em primeiro lugar trata-se de uma adaptação de um romance de ficção científica, assinado por autores de referência do género, relatando experiências vividas num outro planeta, entre outros povos, por enviados da Terra que, munidos de sistemas de captação de imagem, estão constantemente a enviar de volta informação (para estudo). O livro, tal como o filme, reflete opções distantes da “linha dura” da ficção científica, habitualmente mais presente entre a escrita e o cinema de autores ocidentais, nos quais as marcas das ciências exatas e naturais, assim como da tecnologia, têm uma expressão na história. Aqui essas marcas estão um pouco como aquela frase que precede cada filme Star Wars que nos diz que o que vamos ver aconteceu há muito tempo numa galáxia distante, coisa que depois ninguém se lembra mais de questionar. Porque é a premissa que lança a ficção. Aqui a premissa está no facto de sabermos, à partida, que estamos num outro planeta, a observar… E o resto segue muito os caminhos ricos em pensamento filosófico, sociológico e até mesmo político mais habitual noutros caminhos da ficção científica, seja na escrita dos irmãos Strugastki ou do polaco Stanislaw Lem (o autor de Solaris) ou, para termos um referencial ocidental, em alguma escrita de Philip K. Dick…
Gostando ou não de ficção científica, experimentem ver É Difícil Ser Um Deus. É tudo menos uma experiência de satisfação imediata… Mas depois de vencida a estranheza e náusea que os ambientes e gestos possam sugerir, e uma vez integradas a violência e escatologia nos contextos, não só nos é dada uma experiência visual invulgarmente diferente e intrigante como, no fim, se faz afinal luz naquele irrevogável (bela palavra) regresso à casa de partida: como em toda a ficção científica mais não falamos senão sobre nós e o nosso mundo. E aqui, como noutras distopias, o uso da força e da ignorância como armas do poder são ponto de partida para, uma vez mais, pensarmos em nós, no nosso planeta, na nossa história e até mesmo no nosso presente.

“É Difícil Ser Um Deus”, de Aleksei German, está disponível em VOD em alguns videoclubes nacionais.

O filme acaba de ter edição em Blu-ray no Reino Unido – com o título “Hard to Be a God” – numa edição pela Arrow Academy que inclui comentários e entrevistas com o filho e a mulher do realizador e depoimentos de dois críticos e estudiosos do cinema sobre o filme e a obra de German.

Deixe um comentário