Por 13 minutos este homem não mudou a história
Texto: NUNO GALOPIM
A 8 de novembro de 1939, tinha a II Guerra Mundial eclodido há pouco mais de dois meses, um atentado falhou por 13 minutos o seu alvo. O lugar era o Bürgerbraukeller, em Munique, a sala que ficara famosa pela insurreição de 1923 liderada por Hitler e que, desde então, se tornara num espaço de referência da cultura nazi. A vítima era o próprio Hitler que, tendo saído da sala 13 minutos antes da detonação das cargas de dinamite colocadas por detrás do palanque, assim o deixaram ileso. Agindo de consciência e por conta própria, temendo um desfecho infeliz para a Alemanha do conflito militar alargado que se iniciara recentemente, Georg Elser, um carpinteiro e músico amador filho de uma família protestante e com simpatia por ideologias de esquerda, foi detido nesse mesmo dia já ao serão, junto à fronteira Suíça, com ferramentas e planos da sala que armadilhara nos bolsos. Os longos interrogatórios, que acabaram por evidenciar o caráter solitário e engenhoso do atentado, não conduziram à sua morte imediata. De resto, Elser ficou detido durante anos, sendo assassinado em Dachau a 9 de abril de 1945, a poucos dias da queda do regime e da morte daquele a quem tentara tirar a vida alguns anos antes.
Oliver Hirshbiegel, o mesmo realizador que há onze anos nos dera a ver os últimos dias de Hitler no magistral A Queda, voltou a estes tempos da história alemã recordando, em 13 Minutos, não apenas a tentativa do atentado e a figura de Georg Elser, mas também um tempo de mudanças que o país viveu antes e depois das eleições de 1933 que levaram o líder do partido nazi ao poder.
13 Minutos nunca poderia ser um filme com a dimensão de A Queda. O contexto era diferente, e nem mesmo a claustrofobia das sequências de interrogatório e tortura se assemelham ao quotidiano no bunker sob a chancelaria do Reich que víamos no filme de 2004. Nem Elser, um homem discreto (salvo nos amores), observador e metódico, poderia gerar uma figura tão ofuscante como o Hitler que Bruno Ganz brilhantemente recriou. Mesmo assim, devemos ao Elser de Christian Fielder um dos trunfos maiores de um filme que só não brilha mais porque optou por um insistente registo pendular vivido entre o presente (1939) e flashbacks que se limitam contudo a explicitar memórias ou factos, como que a justificar o que acontecera.
Há todavia mais fulgor e violência (ora latente ora evidente) nas sequências vividas nas celas da polícia do que nas do filme-interrogatório que John Stewart mostrou há alguns meses no tépido Rosewater. Assim como é bem traçado o contexto de mudança política e social que se vive depois de 1933 na zona rural no sul da Alemanha onde vivia a família de Elser num registo que, por vezes, lembra o da saga Heimat, de Edgar Reitz. Houvesse menos necessidade de ser tão explicativo e 13 minutos seria mais do que, apenas, um filme interessante. Tem, todavia, o mérito de não deixar esquecer nem o atentado, nem a figura de Elser, que hoje tem inclusivamente uma lápide junto ao local onde tentou colocar um ponto final a um conflito que, como imaginara, foi demasiado caro para tudo e todos.
“13 Minutos”, de Oliver Hirshbiegel, com Christian Friedel, Katrharina Shüttler, Burghart Klaussner e Johann Von Bulow, está em exibição, em distribuição pela Outsider Films.

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