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O nada suave milagre e outras maravilhas

Texto: DANIEL BARRADAS

O terceiro álbum da sueca Anna Von Hausswolff chama-se “The miraculous” mas a música extraordinária que nele se ouve é fruto de trabalho árduo e pouco deve a uma intervenção divina.

Ao longo de três albuns, Anna Von Hauswolff deu dois passos de gigante. A passagem do primeiro para o segundo álbum cobriu tanto terreno que hoje Singing from the grave parece quase irrelevante. Ceremony marcou o encontro de Hausswolff com o orgão de igreja, um instrumento que ela mesma considerava intimidante, mas que hoje enfrenta com mais coragem do que muitos que possam ter lidado com ele a vida inteira.

Fisicamente, Anna é uma pequena e frágil rapariga loura mas nos enormes orgãos de igreja que tem tocado um pouco por todo o mundo ao longo da digressão de Ceremony foi encontrando a voz para o ser imenso que tem dentro de si. E depois de ter participado no projecto Hydras Dream com o compositor Matti Bye e na banda sonora do bailado “Sonho de uma noite de verão” com o compositor Mikael Karlsson, Von Hausswolff partiu para o seu terceiro álbum com coragem para desafiar e ser desafiada por um dos maiores orgãos do mundo.

O Acusticum é um orgão construído em Piteå na Suécia e inaugurado em 2012. É uma monstruosidade de 9000 tubos que incorpora uma celeste, um vibrafone, várias percursões e uma secção de tubos submersos. (os curiosos podem ouvir aqui Dancing Queen dos ABBA interpretada nesse mesmo orgão ). A exploração sonora que Von Hausswolff fez nesse instrumento acabou por ser essencial na definição do que viria a ser o álbum The Miraculous.

A música deste disco é a mais intensa que a artista já fez até agora. Faz sentido que tenha por nome a referencia a um lugar porque é uma música espacial, presencial. Não só define espaços, como as vibrações do orgão lhe dão uma presença física difícil de igualar com outros instrumentos. Coloque-se a primeira faixa Discovery a tocar bem alto, e logo o primeiro sopro do titânico Acusticum preencherá a sala, primeiro claustrofobicamente, depois derrubando paredes e abrindo horizontes. Em The Miraculous, meio minuto de silêncio entre vibrações é tão intenso e sólido que quase lhe sentimos os ângulos ou vemos a cor.

A liberdade de composição de Von Hausswolff também foi proporcionalmente enorme. O tradicional formato canção é ocasionalmente retomado em An oath e Stranger que, depois dos tour-de-force que são cada um dos temas que as antecedem, soam leves como penas.

A coluna vertebral do album são os 11 minutos de Come wander with me/Deliverance. O título faz-lhe juz e é aqui que Anna Von Hausswolff nos leva a vaguear pela sua peculiar paisagem musical. As referencias podem ser muitas, do prog rock à música de igreja, do mais gótico e metaleiro drone aos coros mais angelicais (se pensarmos em anjos guerreiros). Podem-nos vir à memória trabalhos dos Swans, de Sun 0))) e Scott Walker, mas há em tudo um cunho pessoal que torna qualquer comparação redutora.

Para quem o ouve, este album é uma luta. Há que entrar nele munido de tempo e disposição. Na edição em vinil, a divisão em três partes faz perfeito sentido. Uma pausa a cada quinze minutos é bem necessária. Quando Von Hausswolff diz que se inspirou no filme russo Vem e vê de Elen Klimov, um dos mais desconsoladores e impressionantes filmes em cenário de guerra jamais feitos, acreditamos plenamente.

Este álbum é também uma das primeiras edições da Pomperipossa, a editora criada por Von Hausswolff que tem também já agendados outros projectos curiosos, dignos de se juntarem ao seu universo sonoro. A edição em vinil de The Miraculous é a mais recomendável. A qualidade do som é impressionante e o lado B de um dos discos, por não ter música, dá lugar ao relevo de um belo padrão geométrico desenhado pela artista. Os primeiros exemplares vinham também numerados e assinados e continham um negativo com a foto da floresta que desde a infância a cantora considera o seu lugar milagroso e que dá título a uma das faixas e ao álbum. O mesmo lugar que se pode ver no video de Evocation.

Que em tempos de música tão descartável como os de hoje ainda existam artistas assim, cheios de coragem para seguirem o seu próprio caminho e nos agraciarem com projectos tão trabalhados e cuidados, isso sim é o milagre.

Anna Von Hausswolff
“The Miraculous”
Pomperipossa Records
5 / 5

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