Viagem no tempo dentro de um ‘bunker’
Texto: NUNO GALOPIM
É verdade que há já alguns anos não encontramos em discos novos de Luke Haines quer o fulgor que o revelou como escritor de grandes canções através dos álbuns que lançou como The Auteurs quer as visões de elegância pop e sarcasmo na escrita que depois nos deu nos igualmente suculentos títulos que apresentou via Black Box Recorder. Longe de estar parado tem regularmente apresentado novas ideias e projetos, alguns dos discos mais recentes tendo procurado definir espaços tematicamente coesos e focados. O novo Bristish Nuclear Bunkers não é, assim, uma fuga a estes caminhos recentes.
Inspirado pela descoberta, relativamente recente, da existência, no bairro em que reside, de um bunker para abrigo em caso de conflito nuclear, apresenta aqui uma incursão sobre um espaço que em tempos inspirou medos maiores e chegou mesmo a conhecer visibilidade na música pop através de vários temas e discos, entre os quais o clássico Two Tribes, dos Frankie Goes To Holywood.
Este é contudo um disco bem diferente das trovas de receio ou de clamor pacifista de outrora. Essencialmente instrumental, sugere uma história de alerta perante um ataque nuclear e consequente procura de abrigo num bunker, usando uma vasta legião de teclados analógicos que piscam olhares a heranças do krautrock, arquiteturas rítmicas motorik e outros caminhos com história nos setentas, cruzando ainda estes caminhos cenograficamente mais plácidos e contemplativos com alguns surtos de intensidade sónica que nascem de uma assimilação de sons que associamos aos primeiros jogos electrónicos.
Não foi ainda desta vez que voltámos a encontrar um grande autor no seu melhor. Mas esta não deixa de ser uma experiência, no mínimo, interessante.
Luke Haines
“British Nuclear Bunkers”
LP e CD, Cherry Red Records
3 / 5

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