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A proposta de um PREC com internet

Texto: ANDRÉ LOPES

B Fachada com Pega Monstro: uma aliança criativa que já não é de agora conseguiu facilmente transpor-se para o palco numa noite que teve algo para todos os gostos.

A afinidade de B Fachada com os projetos da Cafetra Records é já um dado adquirido: o músico foi responsável pela produção do primeiro álbum das Pega Monstro e dos 100 Leio, bem como do Último Siso (2014) do Éme. Antes destas colaborações, as referências diretas a B Fachada nas canções dos vários projetos da Cafetra eram, para além de pouco subtis, dadas de uma forma ora amigável ora sarcástica. O tempo passou e as relações estreitaram-se: para além de um disco conjunto em modalidade split editado esta semana, as Pega Monstro e B Fachada iniciaram no passado dia 19 de Novembro uma digressão nacional que propõe a partilha de palco.

O novo Maxime Sur Mer foi o espaço escolhido para a primeira noite deste conjunto de concertos, e apesar da disposição incomum da sala, conseguiu lotação esgotada. Na plateia, fãs de longa data coexistiam com muitos curiosos em relação à premissa dupla que a noite deixava antecipar. B Fachada foi o primeiro a subir a palco, com uma celebrada versão simplificada de Afro-Xula para piano, a seguir à qual foi anunciado o roteiro para a noite: um primeiro conjunto de canções assegurado pelo músico, seguido da actuação das Pega Monstro, e para o final prometia-se um retorno de B Fachada ao palco. Em termos totais, o cantautor mantem a tradição relativamente recente de basear os seus alinhamentos nas canções de O Fim (2012) e B Fachada (2014), o que implica uma oscilação entre a viola braguesa e conjunto eletrónico (que junta teclado e sampler). Algo à partida desfasado não fosse a boa disposição do músico bem como a recetividade do público.

Após uma versão de Branca em regime mais expansivo face ao que acontece no álbum de versões mútuas, as irmãs Maria e Júlia Reis tiveram o palco só para si e forçam-nos a aceitar a sua importância no panorama da música feita em Portugal. Arrancando o concerto com Branca e Braço de Ferro, seguindo um alinhamento centrado no excelente Alfarroba (2015), houve oportunidade para recordar memórias anteriores, bem como para um alargamento de horizontes sónicos. Estrada foi prolongada com uma exploração da guitarra que propõe, sucessivamente, uma incursão pela expressividade shoegaze da guitarra e o desvario rítmico à lá sludge rock. No meio de tudo isto, a evolução de Júlia Reis enquanto baterista é flagrante: sem hesitações, este frenesim percussivo chega a todos os sítios no tempo certo. A versão de Responso para Maridos Transviados acaba por ser o momento mais apaziguado do alinhamento das Pega Monstro, contudo deixou claro que não é só no rock mais ruidoso que estas irmãs encontram a sua melhor sinergia. Ao abandonarem o palco, é percetível que foram elas a ganhar a noite: Júlia prova que não precisa que a sua voz soe saliente (até porque por aqui paira uma aura não muito distante de Liz Fraser por alturas de Head Over Heels) para que os versos sobre desamores e o caos relacional típico de jovens adultos chegue com sucesso aos seus destinatários.

B Fachada regressaria a palco para as canções do seu mais recente disco de originais, por entre referências à presidência e ao atual tempo de “P.R.E.C. mas com internet, não é?” como ali disse. De rajada: Camuflado, Dá mais Música à Bófia, Crus e Pifarinho possibilitaram um arraial modernizado que de resto tem vindo a ser celebrado desde o Verão de 2014 …e sem fim à vista.

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