Para não esquecermos a “guerra fria”
Texto: NUNO GALOPIM
Nos últimos dez anos, apesar de terem sido menos os filmes que realizou face ao ritmo de produção de outros tempos, Steven Spielberg dedicou mais frequentemente a sua atenção a retratos de figuras e factos da nossa história política, deixando a faceta mais lúdica do seu trabalho para experiências na produção, naturalmente abrindo uma exceção para assinar uma nova adaptação ao grande ecrã da figura de Tintin ou uma sequela menor da personagem de Indiana Jones que ficou a milhas de distância dos três filmes que, com esta mesma personagem, criara nos anos 80. Assim, depois de Munique (2005) e Lincoln (2012), os dois mais interessantes títulos da obra de Spielberg nestes dez últimos anos, esse gosto por um cinema político e de época conhece agora em Ponte de Espiões mais um momento de referência num título que representa uma das mais interessantes abordagens recentes aos tempos da “guerra fria” e uma obra digna de figurar entre uma seleção de grandes filmes que retrataram uma Berlim dividida por um muro, tomando assim um lugar ao lado de clássicos como O Espião que Veio do Frio (1965) de Martin Ritt ou Cortina Rasgada (1966) de Alfred Hitchcock.
Uma vez mais Spielberg parte de factos e figuras reais, tomando como ponto de partida um argumento desenvolvido por Matt Charman e pelos irmãos Coen, que teve como ponto de partida uma série de ensaios políticos e memórias, uma delas assinada por Truman Capote, que residia em Brooklyn Heights nos anos 50, na mesma altura em que ali vivia um espião russo que representa uma das personagens centrais do filme.
Ponte de Espiões recorda a teia de acontecimentos que precederam e se sucederam a um incidente em 1960 envolvendo um avião de espionagem U2, abatido sobre território soviético e cujos destroços foram mostrados à imprensa e o respetivo piloto a um tribunal, sendo mais tarde trocado por um espião russo, fechando assim o incidente que teve ampla cobertura mediática após este desfecho.
Steven Spielberg não se limita contudo a fazer uma enumeração de factos e sua arrumação no tempo e no espaço, não deixando contudo de procurar um sentido de realismo ao filmar algumas sequências in loco, tanto em Berlim como em Brooklyn. Com um sóbrio Tom Hanks no papel do advogado que foi encarregado de defender o espião russo em tribunal e, depois, negociar a sua troca em Berlim, Spielberg explora as personagens e as suas relações, dando-nos, em primeiro lugar, uma clara impressão do clima de guerra fria e terror nuclear que se viva, não apenas no patamar oficial mas no plano da sociedade. Num registo profundamente clássico acompanha em paralelo os acontecimentos envolvendo tanto o espião russo como o jovem piloto americano antes de capturado, conduzindo a narrativa com uma clara arrumação cronológica. Um trabalho notável na direção de fotografia, que acentua o novo assombramento em que se estava a transformar a cidade de Berlim 25 anos depois do fim da II Guerra Mundial, um domínio seguro e sábio da arte da montagem e uma banda sonora de Thomas Newman (que compensa a ausência pontual de John Williams) são peças aliadas de um dom raro e há muito reconhecido que Steven Spielberg tem para não só contar uma história mas saber envolver-nos emocionalmente nela.
“Ponte de Espiões”
Realização: Steven Spielberg
Com: Tom Hanks, Mark Rylance, Alan Alda e Amy Ryan
Distribuição: Big Picture

Só o tempo dirá onde aterra A Ponte dos Espiões na filmografia de Spielberg, mas este é um cineasta um plena forma. Com uma linguagem popular e apelativa continua a encontrar histórias cativantes para contar com uma segurança que faz a arte de filmar parecer fácil e que, pelo caminho, nos faz vibrar com histórias do passado que nos fazem questionar o mundo que nos rodeia no presente.
António Araújo — segundotake.com
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