O pequeno milagre dos Beach House
Texto: HELENA BENTO
Numa entrevista recente, após o lançamento de Depression Cherry, um dos dois álbuns lançados pelo duo de Baltimore nos últimos meses, Victoria Legrand deu a entender que haver uma certa intimidade entre o público e a banda durante um concerto continua a ser aquilo que mais preza. E Alex Scally, a outra metade dos Beach House, conta na mesma entrevista (Fact Magazine) que uma vez até pediu aos agentes deles para não marcarem concertos com mais de 1500 pessoas. “Aposto que num concerto dos U2 é praticamente igual estar na primeira ou na última fila. A experiência não é assim tão diferente, porque o público está a levar com aqueles hinos épicos e toda a gente pode cantar em conjunto. Mas num concerto nosso é diferente. Acho que se estivermos a tocar para 2800 pessoas num teatro há uma diferença gigantesca entre estar na primeira fila ou na última”, disse Alex.
Lembramo-nos desta entrevista ao ouvi-los tocar para as 1200 pessoas que lotaram o Teatro Sá da Bandeira, na terça-feira passada, dia 24 de novembro, nesse que foi o último concerto da tour na Europa (o próximo é na Califórnia, dia 7). Acompanhados por dois outros músicos, o baixista Skyler Skjelset (dos Fleet Foxes) e o baterista Graham Hill, Victoria e Alex – ela muito senhora, com aquela sua voz encantatória, e já rouca de tantos concertos, e uma presença discreta mas intensa, e ele acompanhando-a na guitarra, não menos hipnotizado do que o público, ou assim nos pareceu – mostraram que ao fim de nove anos e seis álbuns continuam a ser os melhores a criar pequenas maravilhas a partir de tão pouco. Era precisamente disso que falava Victoria naquela entrevista. “A melhor arte não é necessariamente a maior”.
Victoria Legrand e Alex Scally surpreenderam este ano os fãs ao lançar dois álbuns no curto intervalo de dois meses – o já referido Depression Cherry e Thank Your Lucky Stars, dois registos diferentes ou dois mundos separados (como Victoria tem vindo a dizer nas entrevistas), que acabam por se encontrar nesse desígnio comum que é o desígnio dos Beach House desde o começo – a vontade de se perderem algures numa dimensão qualquer e lá ficar, levitando, como diz a música. Isso e os ambientes sonhadores, e as canções que parecem estar sempre quase a explodir, mas nunca explodindo efetivamente, antes contendo-se, todas as emoções ali contidas, extraordinariamente contidas.
São esses dois álbuns que têm vindo a apresentar durante a tour deste ano, ao mesmo tempo que revisitam temas mais antigos. Desses, tocaram no Porto Master of None, do disco homónimo que marcou a estreia do duo em 2006, Walk in the Park, Silver Soul e 10 Mile Stereo, do Teen Dream, e quatro canções do majestoso Bloom, lançado em 2012 – Myth, Wishes, On the Sea e Irene. De fora, ficou Devotion, cujo concerto de apresentação em Lisboa, em 2008, no Maxime, marcou para eles uma viragem na relação com os palcos europeus, como confessou Victoria numa entrevista recente ao Ipsilon. Já o público, que foi sendo conquistado, respondeu à altura. Não é todos os dias que ouvimos alguém ao nosso lado a cantar Myth do princípio ao fim. Nem que temos uma sala cheia a dizer entredentes, quase cantando, mas baixinho, sussurando, “there’s a place I want to take you”, acompanhando Victoria em Levitation (música que inaugura o já referido Depression Cherry), estava o concerto ainda a começar.
Lendo algumas críticas que se escreveram sobre o concerto de Beach House em Lisboa, no Armazém F (no dia anterior ao do Porto), fica-se com a sensação de se ter assistido a um pequeno milagre na sala do Sá da Bandeira. Se houve filas para entrar, não reparámos. Mas o certo é que Alex, em momento algum, se queixou das condições do espaço (como aconteceu em Lisboa) e Victoria não teve de interromper o concerto para pedir à organização para deslizar luzes ou ao público para desligar os flashes dos telemóveis. Aliás, no fim do concerto, já depois do encore e dos agradecimentos, muitos, que dirigiu ao público, Victoria começou a dirigir-se para a saída do palco, mas a dada altura parou, aproximou-se de um microfone, e ali ficou, hesitante, como se quisesse dizer mais alguma coisa, como se todas as palavras não bastassem para descrever o que acabara de acontecer durante aquela hora e meia de concerto. Depois saiu, sem nada dizer. Não era preciso.

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