Steve Martland: à margem (de certa maneira)
Texto: NUNO GALOPIM
Quando se fala em linguagens que estabeleceram pontes entre os universos da música orquestral e de câmara com os espaços de outros universos, do rock ao jazz e outros caminhos, há um nome que devemos ter sempre em conta: o de Steve Martland. Vitimado por um súbito ataque cardíaco há dois anos, definiu uma obra que não recebeu ainda o merecido reconhecimento do establishment “clássico” tal como são já referência figuras como as de John Adams (que era pouco mais velho), Kaija Saariaho, David Lang, Tan Dun ou Osvaldo Golijov, seus contemporâneos. O facto de ter trabalhado sistematicamente fora do establishment, de ter estado por vezes mais perto dos universos discográficos ligados à cultura pop, o look mais de rock star do que de compositor (e não vale a pena talhar aqui comparações com o visual estudado de um Nigel Kennedy) e uma firme vontade em focar a sua composição em peças para pequenos ensembles (apesar de ter assinado obras orquestrais no início de carreira) ajudam a explicar o relativo afastamento a que muitas vezes a sua música tem sido votada. Não que isto dizer que tenha sido um ermita ou um talento silenciado. Coreógrafos frequentemente buscam nele uma música enérgica e sincopada. A BBC chegou a ter um genérico com uma peça sua. E alguns dos seus primeiros discos viraram peça de culto entre os mais atentos a tendências alternativas da música popular em meados dos anos 80, numa altura em que não só ele foi o responsável pela condução da etiqueta clássica da mítica Factory Records, como foi por aí que se estreou discograficamente em 1989 com Babi Yar, disco apresentado com o número de catálogo Fact 266.
Nascido em Liverpool em 1954 (e não 1959 como muitas vezes surge referido), estudou com Louis Andriessen e desenvolveu uma linguagem musical que partilha referências e heranças com as de alguns compositores minimalistas, mas juntou cedo à sua visão elementos instrumentais habitualmente mais próximos do jazz e da música pop/rock. De resto, o ensemble para o qual compôs uma parta substancial da sua obra incluía uma bateria, uma guitarra elétrica e um baixo, tal e qual o fazem tantas bandas rock, e, além do piano e do violino e outras percussões, incluía ainda vários metais.
Apesar de ter uma discografia relativamente expressiva, com obras suas interpretadas quer pelo Steve Martland Ensemble que por outros grupos ou orquestras, há já longos anos que não surgia no mercado um disco integralmente dedicado à sua música. A última vez que aconteceu (a menos que me tenha escapado uma edição) foi quando, em 2001, a Black Box editava em CD uma seleção de peças pela Sleve Martland Band num álbum que se apresentava com o título Horses of Instruction, uma das mais empolgantes das suas obras, cruzada com um irresistível fulgor de travo jazzístico. Daí que chegue com particular sabor esta soberba antologia que, sob o simples título Martland, apresenta em dois discos uma série de gravações de obras representativas dos mais expressivos caminhos tomados pela música do compositor inglês, dos trilhos pulsantes de Horses of Instruction e Beat The Retreat e de expressões de assimilação de heranças primordiais do minimalismo em Eternal Delight ou de caminhos de libertação em American Invention (onde entendemos afinidades com ideias que habitam algumas etapas da música de John Adams) ao lirismo para quarteto de cordas em Patrol, não muito distantes de um sentido de melancolia (que passa também ocasionalmente pela sua obra) em Crossing The Border. Salvo Patrol, a cargo do Smith Quartet, o disco vive de interpretações irrepreensíveis pelo Steve Martland Quartet.
Há ainda muito para fazer pela devida exposição de uma obra que, tal como a de Philip Glass, Nico Muhly, Osvaldo Golijov, Johnny Greenwood ou Bryce Dessner, mostra como houve quem cedo acreditasse que, na música, os muros eram coisa a derrubar. Apesar de algumas reedições de há 20 anos, falta aos detentores do catálogo da Factory a construção de uma integral da obra de Martland para a editora que, além de Babi Yar/Drill (o tal Fact 266 de 1989) juntava ainda o máxi-single Glad Day (Fac 306, de 1990), o álbum Crossing The Border (Fac 366, de 1992) e ainda Wolfgang (Fact 406), disco no qual aborda o legado de Mozart. Mas para já, tanto para quem o lembra como para quem o não conhece, convenhamos que Martland faz um bom serviço.
“Martland”, com obras de Steve Martland pelo Steve Martland Ensemble e o Smith Quartet, está disponível em 2CD pela NMC e em formato digital no iTunes.

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