À procura do tom
Texto: DANIEL BARRADAS
Há um som de orquestra que todos conhecem mesmo não sendo frequentadores assíduos de concertos clássicos: aquele momento em que um músico dá o tom e todos os outros afinam por ele os seus instrumentos. É um caos sonoro que emerge mas que se vai transformando em harmonia até ao momento em que todos ficam prontos para a actuação. Não há melhor metáfora do que essa para explicar as falhas e as qualidades da primeira temporada da série Mozart in the Jungle.
O episódio piloto começa por nos expor o cenário e apresentar personagens: o experiente e conservador maestro da orquestra sinfónica de Nova Iorque vai deixar de dirigir e um jovem e irreverente maestro mexicano (Gael Garcia Bernal) é contratado para o substituir na tentativa de renovar o interesse do público e investidores numa instituição que se começa a tornar algo bafienta. A inspiração na história real do maestro venezuelano Gustavo Dudamel é intencional e usada da melhor maneira para demonstrar o dilema que as instituições ligadas às artes eruditas encontram no momento em que precisam balançar orçamentos com gostos do público.
Em paralelo temos a história de uma jovem oboista que, graças a uma pouco ortodoxa audição, consegue um lugar na prestigiada orquestra. A sua integração numa instituição em que o talento tem de dar as mãos com a burocracia e que é regida por um sistema de castas de senioridade, é a melhor porta de entrada para os bastidores de um mundo profissional que muitos desconhecem.
Destes dois fios de história emergem rapidamente algumas situações cliché que os três primeiros episódios só conseguem resolver com um mínimo de originalidade. Felizmente a série é servida por um elenco extremamente competente que empresta charme e calor às personagens, mesmo quando os escritores só começam por lhes dar caricaturas para interpretar.
Felizmente, ao quarto episódio as coisas começam a mudar. Esgotado que fica o arsenal de piadas e situações óbvias, os escritores agarram a liberdade de estar em terreno virgem (afinal comédias sobre músicos clássicos contam-se pelos dedos das mãos) e desviam-se dos “solistas” (o maestro, a jovem música) para explorar o potencial que lhes é oferecido por um largo elenco de personagens que vai dos músicos que integram a orquestra aos técnicos de palco, dos gestores culturais aos mecenas, dos técnicos de marketing aos jornalistas. Neste último caso é de notar a subtil mas hilariante figura de Jason Schwartzman (criador da série (em conjunto com Roman Coppola) que tem lições bem aprendidas de todas as suas colaborações com Wes Anderson e da injustamente menosprezada mas genial série Bored to death) na pele de um bloguista que se julga mais importante que o New York Times. O que seria um cameo ocasional é tão bem sucedido, que a personagem volta a aparecer no último episódio e faz-nos desejar que passe a ser presença regular.
Esta primeira temporada da série explora o breve intervalo em que a orquestra passa das mãos de um maestro para o outro. O décimo e último episódio tem lugar durante o concerto de abertura da temporada dirigida pelo novo maestro. Chegados a esse momento, é notável verificar como a série soube crescer até aqui, dando verdadeira dimensão e profundidade às personagens e criando linhas de enredo que convergem para se entrelaçar e explodir na crise que surge durante o concerto. Nesse ponto estamos de tal maneira investidos e seduzidos pelo charme destas pessoas que todas as suas pequenas derrotas e sucessos nos afectam profundamente.
Levou certamente tempo aos argumentistas a encontrar o tom, como a orquestra que se prepara para tocar, mas ao sétimo episódio, que decorre totalmente numa festa de angariação de fundos, temos a prova de que estão a tocar concertados com a realização e os actores e que esta é a partitura certa. O comentário social é certeiro e hilariante. Rimo-nos porque tudo é triste verdade. Em pouco mais de 20 minutos, acertam repetidamente na mouche do que deve ser a comédia: estimulação da inteligência. E eis que estamos finalmente frente a uma nova série de comédia para levar bem a sério.
Outra coisa que a torna especial é o papel que a música desempenha ao longo da série. É claro que somos servidos com muita música clássica mas, tal como os ouvidos do maestro Rodrigo se abrem aos sons da cidade numa cena memorável a bordo de um taxi, também os criadores da série fazem questão de mostrar que na música há apenas um universo que abrange tudo e não compartimentaçöes estanques. Há o velho maestro que redescobre a alegria ao tocar bongos numa salsa cubana, há a burguesa veterana de orquestra que mantém uma colecção de vinil com Black Sabath e Led Zeppelin, há o velho flautista que depois de uma noite de sexo se sente rejuvescido e canta a plenos pulmões “I want to swing from the chandelier”. Ou seja, é uma delícia para melómanos.
Citando Madonna: é a música que junta as pessoas. Os criadores da série sabem isso perfeitamente e demonstram-nos vezes sem conta, que é a música que importa servir. Comovemo-nos repetidamente porque a beleza triunfa, a música transcende todas a barreiras. É ela que está acima de todas as personagens e é ela que lhes dá propósito.
Os Globos de Ouro, ao contrário dos Emmys, reconheceram aqui algo digno de nomeações nas categorias de melhor comédia e melhor actor de comédia. É pouco provável que os prémios lhe cheguem às mãos, visto terem na mesma categoria concorrentes de peso como Transparent, Veep ou Silicone Valley, mas é certamente uma boa maneira de despertar a atenção de novas audiências para uma série que faz por as merecer.
A segunda temporada de Mozart in the jungle estreará no serviço de streaming da Amazon já no dia 30 de Dezembro. E é bem provável que quem tenha visto a primeira temporada não espere por 2016 para devorar a segunda…

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