1999. Ao serviço da pista de dança
Texto: NUNO GALOPIM
É frequentemente apontado aos Duran Duran um importante esforço pioneiro na relação com o teledisco como importante ferramenta promocional para as suas canções. De facto assim é, e logo com Planet Earth encetaram uma relação com a criação de pequenos filmes pensados para garantir às canções uma visibilidade no pequeno ecrã mesmo que não houvesse a possibilidade de ter a banda em estúdio. A MTV estava a nascer, mais dia menos, dia, e a aposta revelou-se, mais do que acertada, o paradigma de um novo relacionamento da música pop com o vídeo. Houve porém outra importante estreia a acontecer logo por ocasião do lançamento do primeiro single (em fevereiro de 1981) e que definiria outra direção importante na comunicação da música dos Duran Duran: o máxi-single. Houve desde cedo a consciência de que a criação de versões longas, com maiores segmentos instrumentais ou até mesmo valorizando a secção rítmica, seriam fulcrais para uma exposição da música além dos espaços da rádio, dos ecrãs de televisão e dos palcos. De resto, quando o álbum Rio chegou aos EUA, a ideia da Capitol (que ali os representava) era a de vincar a face dançável das suas canções, tanto que ali o disco conheceu uma primeira edição com uma série de temas remisturados para acentuar esta ideia.
Mesmo tendo ocasionalmente lançado baladas como singles (o que não foi frequente), os Duran Duran fizeram acompanhar sempre os seus singles com versões “noturnas” para a pista de dança que eram editados em máxis de 12 polegadas frequentemente sob variações do grafismo da capa dos singles.
Planet Earth conheceu uma versão longa que, mais do que remisturada, era mesmo interpretada em real time, acentuando a face disco que estava já evidente na mistura do single e estendendo a composição com maiores trechos instrumentais. Uma opção semelhante pelo acentuar da costela disco sound da composição seria meses depois evidente em My Own Way. Sem remistura para o flirt mais rock’n’roll de Careless Memories, Girls on Film conheceu uma abordagem ritmicamente mais elaborada, criando uma versão que chegou depois a ter mesmo expressão na estrada, em digressões posteriores.
Na etapa Rio as versões longas procuraram sobretudo juntar sequências instrumentais, umas disponibilizadas em máxis, outras lançadas no EP Carnival (com alinhamentos diferentes em vários países) pelo qual foram ainda recuperadas versões dançáveis de temas do álbum de 1981. Há aqui dois temas que não chegaram a single – Hold Back the Rain e New Religion – que não deixam contudo de estar na mira destas operações.
A primeira abordagem radical a uma canção feita pela remistura, procurando outras formas e até mesmo estrutura chega com Is There Something I Should Know? (1983), novo passo surgindo só um ano depois em The Reflex, após variações para Union of the Snake e New Moon on Monday não muito longe do modelo usado nos dias de Rio. Em The Reflex Nile Rodgers foi chamado a repensar a canção, descobrindo entre as pistas gravadas um fulgor pop dançável que a transformou num êxito colossal. A etapa “clássica” concluiu-se com The Wild Boys, cuja leitura máxi – que estende sobretudo o instrumental e acentua a percussão – serve a versão longa do teledisco, como a vemos no filme Arena: An Absurd Notion. A View to a Kill não conheceu remistura oficialmente editada.
Após o hiato Power Station/Arcadia, o retomar da discografia, em 1986, com Notorious mostrou o grupo mais firme que nunca no acentuar destes relacionamentos. Afinal estávamos em tempo de uma verdadeira revolução nos mapas da club culture e a pop dos Duran Duran refletiria esses efeitos. Houve várias remisturas para temas do álbum (e não apenas os três singles) que então surgiram em EPs. Dois anos depois, entre os singles de Big Thing e Liberty, a presença das linguagens da house começa a ganhar forma em remisturas que aos poucos largavam a sua mais evidente ligação à forma original das canções, afastando-se progressivamente rumo a desconstruções, que têm expressão bem evidente, por exemplo, na leitura dos D:Dream para Drowning Man, em 1993.
Esta parte da história – que na verdade corresponde à que revelou as mais interessantes remisturas para temas dos Duran Duran – foi contada na antologia Strange Behaviour, que a EMI lançou em 1999, na sequência da antologia de singles Greatest.

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