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Um poema a quatro patas

Texto: NUNO GALOPIM

A partir de memórias da pequena Lollabele, Laurie Andereson mostra em “Coração de Cão” um percurso narrativo e pessoal de dimensão poética no qual o mundo do cão é ponto de partida para outras reflexões.

Já tínhamos escutado Laurie Anderson a contar histórias com cães. Foi em 2014, numa sessão spoken word em pleno Leffest, quando entre outros assuntos (um deles a sociedade sob vigilância em que vivemos) contou como tinha participado num concerto especial para cães promovido junto da ópera de Sidney, na Austrália. Um concerto no qual quem levava o cão era o acompanhante, para trocar as voltas às rotinas mais habituais. E logo ali contou que estava a preparar um filme. E que era sobre cães. Na verdade, Coração de Cão, que teve estreia este ano em Veneza, é mais do que apenas um filme sobre cães. Tem Lollabele, uma cadela, por protagonista. Mas as memórias que desperta em Laurie Anderson são apenas um caminho para um percurso poético de vistas mais alargadas, que nos levam quer numa incursão pelos ecos dos acontecimentos do 11 de setembro e da resposta de segurança que se seguiu, quer numa reflexão sobre a morte (que não esconde a lembrança da perda de Lou Reed, cujo Turning Time Around escutamos mal o filme termina e os créditos rolam sobre o ecrã).

Coração de Cão é um documentário, mas na verdade está mais próximo do que são as criações de storytelling de Laurie Anderson do que dos formatos que frequentemente são explorados. A voz, sempre cativante e quase hipnótica, de Laurie Anderson, conduz a narrativa, seguindo um texto que alinhava num fio comum, que flui sem aparentes desvios, apesar das ocasionais mudanças de assunto.

A poesia mora em primeiro lugar nas palavras, na forma muito pessoal de contar as memórias de Lollabele, mas também do mundo em que viveu, dos espaços que percorreu, de episódios de uma vida a quatro patas surgindo aqui e ali alusões a outros, contemporâneos, daqueles que caminham habitualmente apenas sobre duas. Emotivo, introspetivo, o percurso pessoal não fecha as portas ao humor, que afora por exemplo quando Laurie Anderson conta como, numa etapa em quem a cegueira não deixava mais Lollabele ver, a sua pequena companheira começara a desenvolver uma particular capacidade em premir as teclas dos seus pianos e sintetizadores, notando até mesmo uma afinidade quando eram usados registos de som habituais na sua música.

Há depois um segundo plano poético no pensar da imagem. Que não procura a representação dos lugares nem das gentes na vida de Lollabele, mas sim de uma forma se sentir a sua lembrança, quer quando a câmara olha ao seu redor como o poderiam fazer os olhos de um cão, quer no modo como opta antes por outras soluções e sugestões que, cativantes a quem olha, não deixam contudo desviar o fluxo narrativo da voz que encaminha o contar das histórias.

A música, apesar de ajudar a definir a cenografia, acaba por ser uma aliada fulcral da voz, estabelecendo outra das ligações claras para com a obra recente de Laurie Andreson, revelando contudo um pensamento da sua relação com a imagem bem diferente do que conduzira o filme-concerto Home of The Brave que ela mesma havia realizado há cerca de 30 anos.
Coração de Cão vive num terreno familiar das histórias contadas por Laurie Anderson. Mas como cinema é das propostas narrativas mais inesperadas e sedutoras que vimos passar por uma sala escura nos últimos tempos.

“Coração de Cão”, de Laurie Anderson, está já em exibição. A banda sonora está editada pela Nonesuch Records.

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