Singularidades de uma rapariga pintora
Texto: NUNO GALOPIM
Quem conta um conto acrescenta um ponto. E neste caso, com dois patamares de contos contados pelo meio, entre os factos que fizeram a vida de Lili Elbe e a história relatada em A Rapariga Dinamarquesa, de Tom Hooper (o mesmo de O Discurso do Rei), há de facto algumas discrepâncias. Diferenças que servem os propósitos de um arco narrativo mas que acentuam o facto de a figura evocada ser mais uma fonte de inspiração do que a protagonista de uma história de vida fielmente recordada. Afinal os biopics costumam ser muitas vezes assim…
Com um cuidado extremo nas recriações de época (tal como sucedera no filme sobre Jorge VI), espaço suficiente de afirmação para a interpretação de Eddie Redmayne poder piscar o olho à temporada de prémios, um belíssimo uso de espaços exteriores em Copenhaga, mas sob uma realização apenas sóbria e muito convencional, A Rapariga Dinamarquesa evoca a figura de Lili Elbe, uma das primeiras pessoas a passar por uma cirurgia de redesignação sexual, no início dos anos 30.
Com o livro homónimo de David Ebershoff como patamar intermédio entre os factos e o que o realizador levou ao plateau, A Rapariga Dinamarquesa acompanha um período na vida do casal de pintores Einar e Gerda, ele incessantemente focado em memórias de uma paisagem dos dias de juventude (e vale a pena lembrar que há uma importante tradição paisagista na pintura dinamarquesa dos tempos do romantismo), ela dedicando-se ao retrato. E é ao pintar Einar com roupas de mulher – e a quem chama Lili – que, por um lado, ela descobre a sua musa e modelo ideal. E ele a expressão exterior de um desconforto com o próprio corpo que desde sempre sentira.
O filme acompanha sobretudo o modo como a presença de Lili ocupa gradualmente o espaço de Einar na vida do casal. E segue a tentativa de resolução do desconforto num tempo em que nem os próprios médicos pareciam compreender o que era a transexualidade. E desvia-se muito da realidade na hora de entrar nas cirurgias que, de facto, aconteceram, mas em outro número e sob outro panorama de visitas à paciente.
O filme peca sobretudo ao querer dar por vezes mais protagonismo às expressões de tensão conjugal do que ao afloramento da consciência do que de diferente o jovem pintor sentia quando vestia a pele de Lili. E todo o jogo de confrontos de opiniões e incompreensões são “aviados” numa sequência rápida de planos entre clínicos. Além disso, e tal como o livro, o filme tem sido alvo de críticas por omitir o que se crê hoje saber sobre a própria sexualidade de Gerta, uma das mais célebres autoras de pintura erótica feminina da época. E quando se faz um biopic, mesmo com todas as liberdades criativas que a ficção justifica, há dados de contexto e do universo das figuras à volta do protagonista que não devem ser ignorados, a bem da caracterização da própria figura de quem se fala.
“A Rapariga Dinamarquesa”, de Tom Hooper, com Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts e Ben Whishaw, está em exibição com distribuição pela Nos Audiovisuais.

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