O horror da guerra não fica no campo de batalha
Texto: NUNO GALOPIM
Num tempo que assinala o centenário de alguns episódios marcantes da I Guerra Mundial é natural que haja histórias desses dias (umas de ficção, outras mais ancoradas na realidade) a surgir em livros, não fechando assim todo o panorama livreiro recente sobre este tema entre os (muitos e interessantes) volumes de não-ficção sobre esta época que têm surgido nos últimos anos. Publicado em agosto de 2013, Até Nos Vermos Lá em Cima, de Pierre Lemaitre (publicado entre nós pelo Clube do Autor, numa tradução de Miguel Serras Pereira), é um dos exemplos deste espaço de narrativas ficcionadas, num romance que junta um conjunto de personagens e situações criadas pelo autor a um contexto no qual se evocam algumas realidades factuais de então.
O livro arrebatou o entusiasmo de várias opiniões e venceu inúmeras premiações, entre as quais a edição desse ano do Prémio Goncourt e uma distinção como Melhor Romance Francês do ano pela revista Lire. Agora, e antes que chegue em 2017 ao grande ecrã uma adaptação deste romance, sob realização de Albert Dupontel (com extenso trabalho como ator e autor de, entre outros, Gravidez de Alto Risco), eis que o livro de Pierre Lemaitre conhece uma primeira segunda vida através da banda desenhada.
A adaptação do texto coube ao próprio escritor que, em colaboração próxima com o desenhador Christian de Metter, apresenta em Au Revoir Là Haut um dos melhores livros que a nona arte nos deu a ler em 2015.
Definido por um belo traço com personalidade e colorido com o recurso à aguarela, o livro é fiel à trama e caracterização das personagens do romance, colocando-nos perante uma história de hipocrisia, sede de poder e corrupção que começa nos dias finais da I Guerra Mundial com uma ordem (sem aparente justificação) para um ataque, tentando o autor da decisão matar os que se apercebem do sucedido. Sobreviventes (um deles com o rosto desfigurado) são testemunhos incómodos não apenas de jogos de poder que transcendem os factos mais primários do campo de batalha, mas de um esquema de corrupção entre cemitérios e funerárias, contrariando regulamentações sobre a sepultura dos que caíram pela sua bandeira.
Este esquema ilícito é um dos elementos com fundamento real entre os que Pierre Lemaitre usa para contar uma história que na verdade junta ingredientes pessoais e sociais que sabem transcender o quadro dos acontecimentos que as cronologias e os noticiários registaram. O título do livro chega também de outra história menos heróica e também de fonte real, correspondendo a uma nota de despedida à sua mulher de um soldado que parece ter sido injustamente fuzilado em 1914.
“Au Revoir Là-Haut”, de Pierre Lemaitre e Christian de Metter, é uma edição de 168 páginas em capa dura, pela Rue de Sévres.



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