40 anos de Marco: a origem numa Itália unificada
Texto: NUNO CARDOSO
É num porto italiano, mesmo ao pé das montanhas
Que vive o nosso amigo Marco
Numa humilde casinha
Ele acorda muito cedo para ajudar a sua querida mamã
Mas um dia a tristeza chega ao seu coração
A mamã tem que partir, cruzando o mar para outro país
Vais-te embora mamã? Não me deixes aqui!
Adeus mamã, pensaremos em ti!
E tu vais-me provar como gosto de ti
Se não voltar eu irei à procura em toda a parte
Não importa se for longe
Hei-de encontrar-te.
E no final encontrou-a. Muitos ainda se recordam da letra do genérico de Marco – Dos Apeninos aos Andes como se fosse ontem. Mas já lá vão 40 anos desde que a série de animação japonesa dos estúdios Nappon Animation, que tornou o seu protagonista numa das personagens do anime mais populares de sempre, se estreou em televisão. As aventuras do pequeno Marco surgiram a 4 de janeiro de 1976 – em Portugal, chegaram um ano depois à RTP, em versão dobrada – e rapidamente foram exportadas para os quatro cantos do mundo.
A série de animação de 52 episódios, sobre um jovem de Génova oriundo de uma família humilde mas feliz até ao dia em que a mãe, que entretanto atravessa o Atlântico para trabalhar na Argentina em busca de uma vida melhor – o pai de Marco, apesar de médico, recebia pouco com as ajudas aos mais pobres – deixa de lhe enviar cartas. Começa então a viagem de Marco em busca da sua mãe, de Itália ao continente sul-americano. Pelo caminho, o jovem e o seu macaco de estimação vivem várias peripécias, conhecem novos amigos e outros nem tanto assim.
Ainda que o pico de popularidade de Marco Rossi tenha surgido via televisão – a série deu ainda origem a dois filmes de animação, em 1980 e 1999 e o próprio protagonista entrou ainda em episódios de Heidi – foi nos livros que o jovem ganhou vida. Num contexto e com um objetivo importantes.
Estávamos em 1886 quando Edmondo de Amicis lançava aquele que viria a ser o seu maior bestseller e a obra pela qual mais ficaria conhecido. Cuore, o romance lançado no primeiro dia de aulas desse ano, era uma obra escrita em forma de diário por Enrico Bottini, um estudante de nove anos de Turim pertencente a uma classe privilegiada que se vê rodeado de colegas de famílias menos abastadas.
A receção ao romance do escritor e jornalista italiano, que lançou esta obra a pensar nos seus dois filhos, Furio e Ugo, estudantes na altura do lançamento do livro, não tardou em chegar e Cuore foi um êxito imediato de vendas.
O livro que inspirou Marco – Dos Apeninos aos Andes (Marco aparece num dos capítulos da obra) surgiu logo após o chamado risorgimento, numa altura em que a Itália, até então dividida em pequenos estados, estava recentemente unificada. Ora, a mensagem de Cuore estava bem explícita: ao longo das suas 400 páginas e várias histórias paralelas às do protagonista, Enrico, é notória a defesa do patriotismo e da união entre pessoas. O ajudar quem precisa e o respeito e amor incondicional pelas respetivas famílias são também elementos fixos na narrativa de Edmondo de Amicis.
Valores necessários ao timing em questão, de uma Itália nova e unificada, ou intemporais, que prevalecem ao testes de validade. Marco – Dos Apeninos aos Andes foi um êxito mundial também, provavelmente, por isso mesmo: o conceito de família, de amá-la e se lutar por ela. Uma premissa que não tem nacionalidade, era ou religião.

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