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Pierre Boulez (1925-2016)

Texto: NUNO GALOPIM

Morreu, aos 90 anos, um nome fulcral na criação musical e no desenvolvimento de um discurso sobre novos caminhos para a música, assim como um grande maestro sobretudo focado em obras e figuras do século XX.

Compositor, pianista, maestro, ensaísta… Figura completa, com um papel marcante na história do pensamento musical no pós-guerra, figura de proa de um dos mais importantes centros de investigação musical (o IRCAM) e com um trabalho brilhante como maestro numa série de gravações que nele mostraram um exímio dirigente para trabalhos orquestrais de nomes como os de Mahler, Stravinsky ou Bartók, entre outros, Pierre Boulez morreu ontem em Baden Baden, onde vivia. Tinha 90 anos.

Francês, nasceu a 26 de março de 1926 em Montbrison, na região do Loire. Começou a estudar música cedo, localmente, continuando mais tarde em Lyon e, depois, Paris, onde teve Olivier Messiaen como um dos seus professores. Foi através dele que descobriu o universo da música dodecafónica, daí partindo para uma demanda que dele faria uma das referências maiores do serialismo, pela sua obra como compositor e ensaísta passando ainda importantes contribuições para os universos da música eletroacústica e da música aleatória. Obras suas como Le Marteau Sans Maître (de 1955 e reconhecida como uma das mais marcantes obras do século XX) e Pili Selon Pili (composta entre 1957 e 1962) são pilares da sua identidade como compositor num tempo de importantes transformações na música erudita ocidental, em grande parte veiculadas através dos encontros anualmente realizados em Darmstadt nos quais se desenvolviam novas ideias em busca da libertação da música face a algumas das suas características mais frequentes, nomeadamente as marcas nacionalistas que recentemente haviam servido discursos (musicais) de propaganda.

Na década de 70 fundou o Ensemble Contemporain com o qual dedicou importante atenção aos espaços da música de câmara do século XX.

Também nos anos 70, com a criação do IRCAM – ou seja, o Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique (que ainda hoje tem sede no centro de Paris, junto ao Centro Georges Pompidou – Boulez ajudou a dotar os compositores de todo um conjunto de recursos humanos e tecnológicos que permitissem novas descobertas musicais. É por essa altura que ele mesmo ali compõe Répons (1981), uma peça para violinos solistas, orquestra de câmara e electrónicas.

A obra em disco de Pierre Boulez traduz mais do que apenas o seu contributo como compositor. Essa é mesmo assim uma parte significativa do acervo de gravações e, ainda em 2015, a Deutsche Grammophon lançou uma caixa (de 13 CD) com o material de arquivo que tinha quanto a peças de Boulez ali registadas e editadas em disco. Muita da sua discografia mais recente centrava-se sobretudo no seu trabalho como maestro. E de um corpo vasto de discos – que lhe valeram a conquista de 24 Grammys – destaca-se ainda uma das mais importantes parcerias entre os universos da música clássica e os domínios do pop/rock que, em 1984, juntou Boulez (e o Ensemble Contemporain) a Frank Zappa no álbum The Perfect Stranger.

Uma das suas mais recentes (e aclamadas) edições em disco surgiu em 2013 com Boulez a dirigir as primeiras gravações de obras de Szymanowski para o catálogo da Deutsche Grammophon, à frente da Filarmónica de Viena. Estas obras integram o corpo de gravações de obras do século XX para esta mesma editora que em 2015 foram reunidas na caixa antológica Pierre Boulez 20th Century, na qual o compositor e maestro era o fio condutor que ligava todos esses registos.

Fica aqui um registo em vídeo de Boulez a dirigir a Sinfonia Nº 2 de Mahler com a Staatskapelle Berlin (note-se a presença de Daniel Baremboim e de Lang Lang no público):

E aqui dirige Notation VII, de sua autoria, com a Berlin Philharmoniker:

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