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“Einstein on the Beach” de Philip Glass na RTP2

Texto: NUNO GALOPIM

A RTP 2 exibe esta noite, a partir das 23.27, uma gravação de “EInstein on the Beach” de Philip Glass registada em Paris em 2014.

Já se escreveu e teorizou tanto sobre Einstein on The Beach e a forma como a ópera criada por Philip Glass, Robert Wilson e Lucinda Childs se transformou não apenas numa referência do teatro musical do século XX mas também importante momento de viragem na história do relacionamento de novas gerações de públicos com os espaços (físicos e estéticos) da música “clássica” (pois, não é bem clássica mas não deixa de o ser, da graça do paradigma nascendo parte da alma que distingue esta música). Mas o facto de hoje uma gravação de uma produção recente desta peça fulcral na obra de Philip Glass passar na RTP 2 (nos seus 270 minutos de duração), justifica que a ela regressemos.

Depois de talhar as bases e fundamentos da sua linguagem musical, contribuindo então para a definição do minimalismo, Philip Glass procurou a exploração de novos horizontes e novos desafios. Num deles deu por si a trabalhar, pela primeira vez, para um palco, juntando à sua música o trabalho de escrita de palavras, as vozes de cantores e um trabalho de encenação de grande protagonismo na concepção da ideia. Com Bob Wilson concordou em trabalhar uma obra centrada numa figura histórica. E Albert Einstein é o nome que gera o consenso. Com os músicos (e os recursos instrumentais – ou seja, teclados e sopros) do Philip Glass Ensemble como ponto de partida, Glass concebe uma partitura que expressa ainda as premissas fundamentais (da sua visão) do minimalismo.

Juntos, Wilson e Glass decidem adoptar uma estrutura não linear, explorando tendências recentes de um teatro de longa duração (dando ao espectador a possibilidade de viver a sala de espetáculo segundo o seu ritmo). Houve ainda na génese da peça uma vontade em seguir uma lógica não narrativa, as cenas procurando antes refletir sobre a personagem e as suas ideias.

A obra (que acabará designada como sendo uma ópera) apresenta a figura do grande físico do século XX em cinco atos, algumas cenas sendo separadas por interlúdios a que chamam Knee Plays (o nome resultando da noção de ligação que os joelhos representam numa perna). Os textos cantados são essencialmente números, notas musicais e letras, as palavras (provenientes de textos de Lucinda Childs, Christopher Knowles e Samuel L Johnson) surgindo antes num registo spoken word. Aos músicos do ensemble e vozes junta-se ainda um violino.

Einstein On The Beach teve estreia no Festival de Avignon em 1976, revelando desde logo uma visão nova de teatro musical, o seu impacte revelando-se não apenas profundo na subsequente produção operática de Philip Glass mas desempenhando um papel igualmente fulcral no reencontrar da ópera como um espaço de grande vitalidade no panorama da música no final do século XX. Com cinco horas de duração (sem intervalos), a obra permitia ao espectador entrar e sair da sala quando entendesse.

Esta é a capa da primeira gravação em disco de Einstein on The Beach. Registada em 1978, esta gravação teve primeiro lançamento em 1979 na Tomato Records, surgindo depois no catálogo da CBS Masterworks. A gravação tem cerca de 160 minutos de duração, alguns momentos sendo encurtados para caber no espaço de quatro álbuns em vinil.

Esta gravação histórica juntava gravações mas mostrava algumas das cenas em versões encurtadas, da música (interpretada pelo Philip Glass Ensemble) que fora apresentada entre palcos norte-americanos e europeus na sua digressão de 1976. Reeditada pouco depois pela CBS, essa primeira gravação surgiu pouco depois no formato de um CD quádruplo e originou tarde mais uma versão low price que ainda hoje está disponível nas lojas. Nos anos 90, numa altura em que o compositor esteve discograficamente ligado à Nonesuch Records, uma nova gravação (novamente pelo Philip Glass Ensemble) decorreu entre janeiro e março de 1993 nos estúdios de Glass em Nova Iorque, surgindo em disco ainda esse ano na forma de um triplo CD, três anos depois a mesma gravação tendo gerado um CD único de ‘highlights’ da ópera.

Em 2013 surgiu um novo disco que representou a primeira vez que Glass assegurou ele mesmo (através da sua própria editora) uma edição da ópera que colocou o seu nome no mapa-mundo da história da música. O disco resulta da gravação de uma produção apresentada em 1984 pela Brooklyn Academy of Music, a mesma sala que em 2012, assinalando os 75 anos do compositor, repôs em cena esta mesma ópera. A interpretação acentua diferenças maiores face às outras gravações já conhecidas pelo carácter das especificidades dos registos de alguns dos sintetizadores usados. Mas a grande novidade desta edição era a inclusão de um DVD com o documentário (de perto de uma hora) The Changing Image of Opera, de Chris A. Verges, que junta imagens desta mesma produção, momentos dos ensaios e entrevistas onde Philip Glass e Robert Wilson explicam a obra, o contexto em que surgiu e o impacte que, no intervalo de dez anos, começara a ter no meio ao seu redor. A versão em disco (a que traz o DVD como extra) apresenta apenas uma seleção de momentos desta gravação de Einstein on The Beach. Porém, via iTunes, está disponível uma versão integral da ópera, mostrando-se assim pela primeira vez de fio a pavio em suporte áudio sem as restrições naturalmente impostas pelo LP e o CD. A faltar fica, apenas, uma primeira edição em DVD (e, já agora, Blu-ray) da ópera.

“Einstein on The Beach” passa hoje às 23.27 na RTP2. O registo foi gravado em 2014 no Théâtre Musical de Paris-Châtelet (Paris), com realização de Don Kent.No palco surgem: Helga Davis, Kate Moran, Antoine Silverman, a Lucinda Childs Dance Company e o Philip Glass Ensemble.

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