Filmes que evocam a I Guerra Mundial – “Les Croix de Bois” (1932)
Texto: NUNO GALOPIM
1916 foi um ano de intensos combates. O ano arrancou com o desfecho da longa campanha de Gallipoli mas foi sobretudo marcado pela longa e dramática Batalha de Verdun.
Cem anos depois estamos a recordar aqui alguns filmes que retrataram um conflito global como o mundo até então não havia conhecido. Alguns surgiram ainda nos tempos do cinema mudo ou na alvorada do sonoro… Outros nasceram após a II Guerra Mundial, cientes de que aquela calamidade vivida no início do século, afinal, não semeara a paz uma vez assinado o armistício.
Recordemos, então, os filmes:
“Les Croix de Bois” (1932)
de Raymond Bernard
Dois anos depois de A Oeste Nada de Novo, um novo olhar sobre as memórias (ainda relativamente recentes) da Grande Guerra voltava a juntar um ponto de vista pacifista à história da representação de um conflito mundial como, até então, o mundo não havia conhecido. Realizado por Raymond Bernard, Les Croix de Bois acompanha um regimento francês na frente de batalha. E, ao manter as atenções sobre um grupo progressivamente mais reduzido de soldados (a morte levando aos poucos os seus companheiros), o filme não só traduz uma visão sobre os cenários de guerra como escuta e observa aqueles que são obrigados a combater. Se o cuidado na caracterização dos vários protagonistas (num modelo que conheceu várias expressões mais tarde, nomeadamente em A Barreira Invisível de Malick) sustenta a dimensão pessoal da narrativa, o trabalho de mestria na direção artística, de fotografia e montagem confere depois quer aos compassos de espera uma dimensão claustrofóbica, carregada de ansiedade, quer às cenas de batalha uma sensação de perigo e desnorte, que tudo parece fazer desabar sobre todos a todo o momento. Pela narrativa cruza-se uma expressão da hierarquização das responsabilidades e da exposição ao perigo, separando as altas patentes em gabinetes tranquilos dos operacionais entre a lama e à mercê das baionetas e tiros, muitas vezes sendo carne para canhão. Se juntarmos uma atenção que não esconde uma curiosidade documental (facto que a inclusão de veteranos entre o elenco reforça), somamos aqui argumentos para recordar este como um dos melhores filmes sobre a I Guerra Mundial.
1927. “Asas”
de William Welman
A 16 de maio de 1929 no Hollywood Roosevelt Hotel, em Los Angeles, o primeiro prémio para Melhor Filme (Outstanding Picture era a designação usada), numa altura em que ainda não se falava de Óscares, era entregue a a Asas, no original Wings, de William A. Wellman. O filme, que muitas vezes é recordado por ser esse primeiro episódio na mais importante das categorias dos Oscares, é contudo mais do que apenas o portador desse feito. Este colossal épico representava então das primeiras abordagens do cinema de ficção às memórias (ainda bem recentes) da Grande Guerra de 1914-1918 e traduziu ainda uma aposta na exploração do universo da aviação que abriu caminho para o clássico Os Anjos do Inferno, que Howard Hughes realizaria em 1930. Sob ecos da experiência do próprio realizador (que foi aviador e combateu nos campos de batalha da Europa), Asas foi rodado, com uma multidão de figurantes, numa zona despovoada no Texas onde foram construídos os cenários para as cenas de batalha.
Ali seriam também rodadas as sequências de combate aéreo. O filme, que fez ainda história por ser dos primeiros com cenas de nudez de uma estrela (Clara Bow) e por mostrar o primeiro beijo entre dois homens na história do cinema americano, cruza uma narrativa centrada entre dois rivais que o tempo transforma em grandes amigos. A guerra, as batalhas, mas também as licenças longe da frente de combate, e uma dramática sequência final fazem o corpo de um filme que tem nas cenas da aviação um dos seus trunfos.
1930 “A Oeste Nada de Novo”
de Lewis Milestone
Eram ainda recentes as memórias (e feridas) da I Guerra Mundial quando o ex-veterano alemão Erich Maria Remarque publicou o romance A Oeste Nada de Novo, um olhar realista (e vivido) do quotidiano entre trincheiras que revelava um discurso profundamente pacifista. É baseado nesse relato de quem por ali passou que Lewis Milestone nos conta a história de um grupo de jovens estudantes alemães que, depois de alistados para combater, partem em clima de efusivo idealismo, a realidade que depois encontram no campo de batalha transformando o seu dia a dia num espaço de desolação, desencanto e medo, colocando acima de tudo o desejo de sobreviver.Com uma noção soberba de enquadramento e mise-em-scène e um trabalho de montagem ritmado e expressivo (e vale a pena lembrar que o visionário O Homem da Câmara de Filmar de Vertov datava do ano anterior), A Oeste Nada de Novo aliou uma atitude política a um quadro narrativo e visual pensado na linha da frente de um cinema que então inventava novos caminhos.
1981. “Gallipoli”
de Pete Weir
Mais do que apenas um filme de guerra, Gallipoli revelou na abordagem de Pete Weir uma forma de, através da evocação de um dos mais trágicos momentos da história das forças armadas australianas, lembrar o que era o quotidiano no país pouco mais de dez anos após a sua constituição como federação. Com um elenco protagonizado por Mel Gibson e Mark Lee, o filme passa grande parte do tempo entre a imensidão das paisagens australianas (ora em feiras onde as duas personagens centrais se batem em corridas pelo prémio em dinheiro ora, depois, ponderam e se alistam para combater pelo Império Britânico) e o Egito, onde eles e tantos outros recentemente alistados cumprem o treino. A “guerra” entra em cena na etapa final do filme, evocando a Batalha do Nek, uma tentativa frustrada de conquista de terreno pela infantaria que dizimou as três vagas de assalto australianas sob o poder das metralhadoras turcas. A sentença ditada sobre a “carne para metralhadora”, sob a ordem de uma mais alta patente, representa um dos focos dramáticos do filme, porém ao que parece sob algumas marcas imprecisas (e que não são caso único no filme): o oficial que deu as ordens era australiano e não inglês, como o sotaque do ator sugere.

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