Viver na Berlim que foi outrora de David Bowie
Texto: FRANCISCO GONÇALVES SILVA, em Berlim
Ninguém esperava que a partida fosse tão inesperada como a de hoje. David Bowie deixou-nos dois dias depois do seu sexagésimo nono aniversário, dois após o lançamento de Blackstar, o vigésimo quinto e último álbum de carreira longa, vasta e multifacetada como nenhum outro artista nosso contemporâneo se pode gabar.
Mudei-me para Berlim recentemente em busca de novas aventuras e de ir atrás do que me faz feliz. Tenho-o conseguido, mas hoje decidi parar e cumprir o meu dever enquanto amante de cultura, música e principalmente do que David Bowie me presenteou ao longo de toda a minha vida.
Vivo no distrito de Schöneberg, a dez minutos da paragem de Kleitspark da linha U7 e passo praticamente todos os dias pelo número 155 da Hauptstraße, o apartamento que David Bowie partilhou com Iggy Pop e onde surgiram as ideias e orientações para Low, Heroes e Lodger, a chamada trilogia de Berlim. O medo de hoje percorrer o caminho que já faz parte da minha nova rotina invadiu-me. Passei o dia a balbuciar canções, a cortar vegetais com lágrimas a correrem pela cara e a cantar “ashes to ashes, funky to funky. We know Major Tom’s a junky” em plenos pulmões. Perguntei-me inúmeras vezes como terá sido viver na Berlim de Bowie, no bairro em que viveu e em que eu agora vivo. Muitas perguntas e respostas poucas.
Cheguei há pouco a casa depois de ter ganho coragem para enfrentar a realidade que neguei ao longo de todo este dia. Dirigi-me ao apartamento que fora outrora dele para encontrar uma multidão de pessoas a fazer o mesmo que eu. Prestar homenagem a um ídolo de infância que já não se encontra entre nós. Que resta fazer? Homenagear, claro.
Esperava encontrar pessoas desamparadas, sem rumo e vazias, mas o cenário era outro. Não faltaram os ramos de flores amontoados, para os quais também contribui, alguém com um iPod a passar os clássicos, pessoas a dançar e a beber cerveja, celebrando a sua memória. Perguntei-me qual seria o peso para a pessoa que actualmente habita o icónico apartamento e se tem noção da dimensão das pessoas que o habitaram entre 1976 e 1978. Novamente fiquei sem respostas, fiquei-me pela imaginação.
Chorar já não serve, restam-me agora as memórias de infância e de adolescência e do dia em que tomei conhecimento de que David Bowie era uma pessoa real, um músico que agrada a todas as gerações e que tantas as noites passei a dançar na sala de minha casa em Lisboa com a minha mãe e o meu padrasto. Transcrevendo o que uma grande amiga disse e muito bem, mesmo que não se goste, e mesmo assim é preciso ser esquisito porque existe uma faceta Bowie para todos nós durante 54 anos de carreira, é inegável o contributo valioso que o camaleão teve para a cultura, para a música, tanto na moda, no cinema e até na percepção e concepção de género.
O mundo está mais pobre, sim, mas somos todos privilegiados, uns mais do que outros em termos partilhado o mundo com David Bowie em qualquer geografia.
Por aqui, em Berlim, vou continuar saudoso de momentos que ele me proporcionou enquanto criança, adolescente e agora o jovem adulto que sou, tendo sempre presente o significado de David Bowie na minha vida: o de um ídolo que agora partiu.

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