O sonho pode esconder um pesadelo
Texto: NUNO GALOPIM
Há momentos em que a realidade que habita as páginas dos jornais entra pelos ecrãs adentro sem que um documentário esteja a ser projetado. É assim com Mediterrânea. Quando em 2015 passou em Cannes, integrando a programação da Semana da Crítica, não eram já invulgares as notícias de embarcações trazendo migrantes das margens sul para as costas europeias do Mediterrâneo, tantas vezes as viagens acabando em trágicos acidentes e sonhos de melhor vida ali afogados. Com um registo realista bem distinto do tom poético do igualmente urgente Timbuktu de Abderrahmane Sissako, embora sem lhe chegar aos calcanhares, Mediterrânea é outro dos casos do cinema de 2015 em que alguns dos dramas humanitários do nosso tempo melhor exposição conheceram no cinema.
O filme começa a Sul, centrando-se em dois homens que chegam do Burkina Faso para, via Argélia, entrarem num programa de passagem ilegal de migrantes para a Europa. Realizado pelo italiano Jonas Carpignano o filme, mesmo não deixando de nos fazer passar pelo desconforto e insegurança que todos esses esquemas de contrabando implicam, foca antes atenções na relação que os dois africanos (e outros mais que com eles vieram mais os que já lá estão) vão desenvolvendo na região rural italiana que os acolhe e lhes dá trabalho, precário, apanhando laranjas.
O “eldorado” a norte era uma miragem, mais ainda do que as que o deserto pode sugerir. O local onde dormem está valentes furos abaixo das casas que tinham, mas fica perto da cidade e do trabalho. O pequeno roubo, seja para ganhar um camisolão num clima frio ou um leitor de mp3 para mandar de presente à filha, que ficou longe com a mãe, são traços de um quotidiano que a câmara acompanha de perto, tornando-nos espectadores próximos do desmoronar do sonho europeu daqueles que cruzaram o mar em busca de mais e melhor.
Sem maniqueísmos, nem um programa ideológico pré-agendado, Mediterrânea explora os contornos da difícil integração de quem chega de longe. E se há quem partilhe com gosto o trabalho e a mesa das refeições com aqueles que deixaram as famílias para encontrar um ordenado, há outros que não lidam da mesma forma com os recém-chegados. E da soma dos desconfortos e provocações, até os mais plácidos e pacatos dos que abdicaram de muito para tentar a sobrevivência atingem o seu limiar de tolerância. E a violência está ali mesmo à espera para eclodir quando já se foi para além do que o corpo e a mente podem aceitar.
“Mediterrânea”, de Jonas Carpignano, com Koudous Seihun, Sy Alassane e Pio Amato, está em exibição.

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