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Regresso a casa

Texto: DIOGO SENO

Parte filme de crescimento, parte drama romântico, “Brooklyn” apresenta uma narrativa desequilibrada que acaba por não dar sustento à espantosa interpretação de Saoirse Ronan.

Eilis Lacey (Saiorse Ronan) é uma jovem irlandesa a quem o futuro na sua terra natal parece não sorrir. Enniscorthy, uma pequena cidade da Irlanda, na década de 50, é um local cinzento, de poucas ambições e personalidades mesquinhas. Tudo características que desagradam a Eilis, uma rapariga distinta, tanto em inteligência como em comportamento. A única razão que a prende a um local que nada tem para lhe oferecer é a sua amada família, composta pela atenciosa irmã mais velha e a mãe. Mencione-se o relativo cuidado com que a vivência da protagonista na sua terra natal é explorada. Nota-se a atenção na reconstrução de época, tanto em cenários como em guarda-roupa, mas também nos diálogos, que irá atravessar todo o filme.

No entanto, desde o início Brooklyn apresenta desequilíbrios que vão prejudicar desenvolvimentos narrativos seguintes e também a verosimilhança da viagem emocional da protagonista. Desde logo, a relação com a irmã, apesar de ser apresentada como fundadora para ambas, é filmada com uma abertura demasiado grande à lamechice, sem se procurar fundar esta cumplicidade em gestos ou diálogos, antes apostando na música manipuladora. Depois, fica algum sabor amargo pela facilidade com que se desenha a mesquinhez desta terra, numa personagem que não passa de uma caricatura, a da “megera da aldeia”.

Um futuro diferente abre-se a Eilis, quando a irmã consegue que esta viaje para os Estados Unidos da América, terra das oportunidades, desde sempre país aberto aos imigrantes, dos quais muitos irlandeses. Será na exploração desta viagem, e o que ela comporta, que o drama se vai apoiar. O crescimento de Eilis, o desenvolvimento de uma rapariga frágil para uma mulher forte, é feito na luta contra a saudade de casa, e na definição de uma identidade nova numa terra nova. A adaptação da personagem vem a custo de início, e é convincente devido à interpretação de Saiorse Ronan, a revelar-se aqui como uma das mais interessantes actrizes jovens do cinema contemporâneo. Na sua face bela, triste mas digna, desenha-se a dor que aflige os migrantes: a separação da sua terra natal e a sua falta de raízes. E é em relação a esta ideia, apesar dos seus desequilíbrios e da realização competente mas anónima de John Crowley, que Brooklyn tem alguns aspectos interessantes a assinalar.

Eilis descobre na América a oportunidade de se criar: é a ideia do self-made man, aqui com um agradável twist feminino. A personagem está rodeada de outras jovens mulheres, com as quais vive, também elas sem raízes e à procura de si mesmas num novo mundo, e descobre, através da amizade, as possibilidades dessa liberdade. Há uma certa ingenuidade nas cenas com as personagens femininas, e é aí que reside o seu fascínio. Mas é ao descobrir o amor de um charmoso e dedicado italiano (interpretado por um Emory Cohen reminiscente de um jovem Brando) que Eilis descobre a sua maior razão para ficar. A química dos actores é interessante e de resto o romance desenvolve-se com alguma naturalidade e encanto. Mesmo assim, não é convincente o suficiente para a divisão que mais tarde a personagem irá sentir, ao voltar à Irlanda por uma razão previsível desde o início da trama. Esse acontecimento servirá para acentuar os dilemas de Eilis. Infelizmente, como as bases para tais dilemas são frágeis, o filme começa a fracassar.

De volta a Inniscorthy, já uma mulher com formação e a coragem que a sua viagem lhe trouxe, Eilis encontra as oportunidades que lhe faltavam quando partiu: substitui a sua irmã na empresa onde esta trabalhava, é apresentada a um jovem rapaz, solteiro e recomendável (interpretado por um esquecível Domhnall Gleeson, embora aqui se possa culpar tanto o argumento como o actor). Nesta terceira parte do filme, mesmo as qualidades de Ronan não conseguem dar ao dilema da protagonista a esperada empatia, e aquela que podia ser uma marcante personagem feminina do cinema recente, acaba por ficar como um esboço e como o símbolo do fracasso de um filme em estar à altura da sua actriz.

“Brooklyn” (2015)
Realização: John Crowley
Com: Saoirse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson, Jim Broadbent

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