As visões de um pioneiro das noites eletrónicas
Texto: NUNO GALOPIM
Os últimos anos deram nova vida à memória da obra de Patrick Cowley, um dos “pais” do hi-nrg e uma das figuras-chave, senão mesmo o protagonista, da banda sonora para a cena noturna eletrónica que há quase 40 anos floresceu na cidade de São Francisco (Califórnia). Lindstrom e outros heróis de uma nova geração de cultores do space disco estão entre os responsáveis por esta redescoberta que assim levou a uma nova geração de melómanos os discos que lançou em nome próprio, reativando igualmente interesse pelos trabalhos de colaboração que então assinou com Sylvester, entre os quais o clássico Do You Wanna Funk.
Patrick Cowley foi um dos mais importantes pioneiros na construção de uma relação entre as eletrónicas e as pistas de dança, com presença sobretudo determinante na definição de descendências do disco que emergiram então entre Nova Iorque e, sobretudo, São Francisco, em finais dos anos 70 e inícios dos 80, ganhando então a designação de hi-nrg. Autor de algumas pérolas maiores da música de dança desse tempo, muitas delas na voz de Sylvester (com quem colaborou ativamente), criou também uma obra a solo, que se revelou nos álbuns Magatron Man (1981), Menergy (1981) e Mind Warp (1982), este último já criado numa etapa avançada da doença (seria, em finais de 82, uma das primeiras vítimas de sida entre o mundo da música).
Algo esquecido durante anos, Patrick Cowley ganhou um merecido estatuto de referência quando, além de citado por nomes como os Pet Shop Boys ou New Order, os cultores do space disco (em particular Lindstrom) o redescobriram já depois da viragem do milénio. O reencontro com a sua obra começou por se fazer em reedições, às quais se começaram a juntar, depois, compilações de material inédito. Foi o caso, em 2009, de Catholic, álbum que juntou gravações de arquivo registadas na segunda metade dos anos 70, juntamente com Jorge Socarras. Ali se revelava um álbum surpreendente, algo afastado dos destinos para a pista de dança da demais obra gravada por Patrick Cowley, revelando antes um interessante espaço de pioneirismo na pop eletrónica norte-americana, em canções de travo pós-punk nascidas em finais da década de 70, em concreto registadas entre 1976 e 1979.
School Daze, revelado em 2013, foi um segundo fruto de descobertas de arquivo. Na verdade este álbum nasceu da localização, nos armazéns de uma produtora de cinema porno gay, de fitas com a música que Patrick Cowley tinha criado para utilização em filmes desse estúdio de Los Angeles. Contactado em 1981 para criar música para estes filmes, Cowley juntou fitas de gravações suas, algumas dos seus dias de estudante universitário. Nomes como Wendy Carlos, Tomita ou Giorgio Moroder são inevitavelmente aqui apontados como referência, e revelam neste lote de temas instrumentais algumas experiências que transcendem mesmo os espaços mais próximos da forma da canção que entretanto levara já aos seus discos.
Em 2015 outra peça de arquivo viu a luz do dia. No formato de EP, de uma velha fita saía Kickin’ In, um tema vocal em sintonia clara com os seus clássicos hinos hi-nrg. A canção, juntamente com os outros dois temas que completam o EP, resultou de uma recolha de material na cave da casa do antigo dono da Megatone Records (para a qual Cowley trabalhou em finais dos anos 70 e inícios dos 80), por ocasião de uma mudança. Entre velharias, estava ali uma fita gravada em 1978, com música de Patrick Cowley e revelando Kickin’ In uma colaboração com Frank Loverde (1947-1990), uma das vozes deste mesmo movimento, com outras colaborações já conhecidas com o autor destas composições. Na outra face do disco eram incluídas outras preciosidades ainda mais antigas, gravadas por volta de 1975, em colaboração com Maurice Tani (colega de escola e de trabalho em estúdio), uma delas em regime de busca de novos caminhos instrumentais sobre matriz funk, a outra mostrando uma visão mais robótica destes percursos eletrónicos, o que reforça o papel pioneiro de Patrick Cowley no género.
Agora chegou a vez de descobrirmos Muscle Up, outra coleção de material de arquivo mas que revela a mais inesperada de todas estas galerias de composições inéditas de Patrick Cowley. Trata-se de um conjunto de deambulações instrumentais, essencialmente criadas com eletrónicas, ora sugerindo cenografias, ambientes e percursos, segundo uma lógica mais space do que disco… Há até mesmo uma faixa com o título Uhura, o que sublinha a dimensão sci-fi de toda esta visão. Este conjunto de faixas surge do mesmo acervo de fitas gravadas entre 1973 e 1979, criadas com o cinema em vista. Porém, e apesar da lógica programática das composições – The Jungle Dream sugere uma viagem em selva tropical, entre névoas e mistérios, ao passo que Unhura e Mockingbird Dream 2 são dois entre os vários percursos oníricos interestelares que aqui encontramos –, muitas vezes esta música era criada sem ter em conta que figuras, tramas ou lugares iria servir. Estamos, assim, num patamar semelhante ao da música para filmes imaginários que, mais tarde, e nesses casos com discos em vista, escutámos sob assinatura de músicos como Paul Haigh (em Cinemage) ou Brian Eno (em Music for Films).
No final da viagem fica a certeza de que olharmos Patrick Cowley como percursor do hi-nrg é na verdade uma descrição redutora. O conjunto de revelações que estes discos têm feito chegar aos nossos ouvidos confirmam-no, na verdade, como um dos mais importantes pioneiros na aventura da emancipação noturna da música eletrónica…
E depois disto ficamos agora à espera das próximas fitas inéditas que talvez ainda andem por aí à espera da hora de chegar a disco…
“Kickin’ In”
12”, Dark Entries
4 / 5
“Muscle Up”
2LP, CD e DD, Dark Entries
5 / 5

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