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Quando John Houston (re)encontrou o boxe

Texto: JOSÉ RAPOSO

Não é muito difícil olhar para “Fat City” (“Cidade Viscosa”, 1973) e encontrar no filme um reflexo da vida do próprio realizador, que em tempos fora pugilista, interessado pela pintura e pelas corridas de cavalos.

Domingo de manhã ou, se calhar, já são três da tarde e ainda a semana vai a meio. Billy Tully corre o quarto a ver se dá com a caixa de fósforos. Não a encontra porque ali as coisas nunca estão em ordem, nem hoje nem amanhã. Resignado, veste qualquer coisa e de cigarro ainda por acender no canto da boca, lá desce as escadas da pensão – La Barata, um daqueles lugares com o nome mesmo a condizer. Não sabemos exactamente o motivo, mas chegado lá abaixo muda logo de ideias não era este, afinal, um dia igual aos outros?). Na banda sonora ouvimos uma canção de Kris Kristeofferson “I don’t care what’s right or wrong / I don’t try to understand / Let the devil take tomorrow / Lord, tonight I need a friend”, e compreendemos logo que a Tully tão pouco importará a razão. Para isso, há sempre o boxe. Copos, cigarros, solidão. Começa assim Fat City (Cidade Viscosa, 1973), realizado por John Huston – um filme terrível.

De facto, não é muito difícil olhar para Fat City e encontrar nele um reflexo da vida do próprio Huston (em tempos pugilista, interessado pela pintura, corridas de cavalos, … tudo experiências tão ou mais importantes que o próprio cinema, como irá mais tarde recordar na sua autobiografia, An Open Book) que por aquelas alturas já tinha uma carreira a rondar os 30 filmes, começando no film noir de The Maltese Falcon (Relíquia Macabra, 1941), passando pelo documentário San Pietro (1943), ao western de The Unfogiven (O Passado Não Perdoa, 1960) – … é mesmo um dos grandes, não é? Huston, o realizador amigo da noite e da boémia amiga, era também um diretor de atores como poucos. James Agee comentava num célebre artigo dedicado ao realizador que umas breves indicações de Huston a Claire Trevor antes da rodagem de Key Largo (Paixões em Fúria, 1949), sobre a postura pretendida quando chegasse o momento de representar uma bebedeira, foi o suficiente para valer à atriz um Óscar. Como não acreditar? De Bogart (O Tesouro da Terra Madre, 1948) a Marilyn (Os Inadaptados, 1961), o que não faltam são exemplos de interpretações verdadeiramente marcantes sob a direção de Huston.

Nesta Cidade Viscosa, é Stacy Keach quem dá corpo a Tully, um boxista veterano que traz em si a angústia do fracasso, que vive a derrota com a resignação de um palhaço. Cruzar-se-á com Oman (Susan Tyrrell, justamente na única interpretação nomeada para Óscar da sua carreira) num qualquer bar de Stockton, Califórnia, e por entre copos e outros combates acabarão por viver parte de uma vida errante e, por isso, humana. Em Stockton, as cervejas parecem vir do inferno.

Como em tantos outros filmes do realizador, o fugaz encontro de personagens marginais, que pela convivência e partilha afetiva voltam a sentir algum conforto nas suas vidas, revela-nos uma profunda meditação sobre a condição humana. Huston expressa esse encontro fazendo do cinema o lugar da convivência, partilha, e amizade. Os enquadramentos em que reúne no mesmo plano os seus protagonistas, renunciando muitas da vezes à lógica do campo/contra-campo, são, por isso, um encontro entre iguais, que nos permite reconhecer no outro a nossa própria condição: eis um sentido possível para uma ideia de humanidade.

Pouco depois daquele início na pensão, acompanhamos Tully até ao ginásio da zona, de regresso aos treinos. Numa breve conversa onde trava conhecimento com Ernie (Jeff Bridges, em início de carreira), um jovem mas promissor boxista que anda por ali a passar o tempo, percebe-se de imediato que está aqui em causa a passagem de um tempo que nunca mais volta, o das oportunidades perdidas, dos erros do passado. Quando Tully lhe sugere que vá ter com o seu antigo treinador, de modo a aproveitar o seu potencial (“vai ter com o Ruben Luna e diz que foi o Billy Tully quem te mandou”) e isto já a conversa vai a meio – Ernie lembra-se de um combate, acabando mesmo por dizer que já o tinha visto a ele, Tully, lutar. Aqui, ficamos completamente desarmados pela encenação de Huston, pela maneira como fica subentendido que Ernie – incapaz de o reconhecer à primeira vista, devido às marcas da passagem do tempo – só se recordou daquele episódio depois de Tully ter dito o seu nome completo. Mas o que é mesmo comovente é o olhar que o veterano boxista lhe lança, quando Ernie lhe conta que foi ele o derrotado nesse tal combate, expressando uma tristeza silenciosa que só o olhar consegue espelhar.

É o tipo de sensação que se resolve com mais algum whisky, e Huston termina a sequência da única maneira possível: dissolve, e no próximo plano damos com Tully já encostado ao balcão.

“Fat City” tem edição blu-ray pela Twilight Time.

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