O elogio da amizade
Texto: DIOGO SENO
Fellini chegou a Roma, vindo de Rimini, em 1939, caricaturas e vinhetas na mala, pronto para fazer carreira no popular jornal satírico Marc’Aurelio. Foi na redação deste jornal, casa de alguma liberdade criativa durante o fascismo, que surgiu um grupo de artistas que posteriormente vieram a ser nomes charneira do período áureo do cinema italiano. Foi também na redação do Marc’Aurelio que se cruzaram Fellini e Scola. Entre eles surgiu uma amizade e uma cumplicidade criativa cuja memória faz a parte mais comovente desta homenagem. Mais do que uma biografia sobre Fellini, o filme de Scola é o elogio da amizade entre dois criadores, e por extensão, à sua arte, a do cinema. É Fellini, enquanto nome maior do cinema mas também enquanto amigo, visto por Scola.
O realizador deste filme optou por misturar a encenação do seu passado em comum com Fellini com cenas humorísticas e surreais que evocam o mestre de esguelha. Encenam-se as memórias da redação, e as tardes no café, com detalhe cómico e atenção às idiossincrasias do carácter italiano, a preto e branco e avança-se depois para a cor melancólica nas deambulações noturnas dos realizadores com Marcello Mastroianni, actor de eleição de ambos, ou com personagens que encontravam na noite – prostitutas, pintores de rua que desdenhavam o cinema. É uma rememoração que vai crescendo em melancolia, à medida que envelhecem e uma era do cinema vai acabando.
Filme habilmente construído, com uma utilização ponderada e equilibrada do narrador, o mestre-de-cerimónias deste filme de memórias (a fazer lembrar o narrador intruso de Amarcord: eu recordo-me…), que se rende ao sonho enquanto o vai desconstruindo.
Os cenários do Studio 5 da Cinecittà não podiam deixar de marcar presença – uma era, um modo de fazer que davam o carácter único ao cinema de Fellini, um cinema enamorado da ilusão que criava, um belo sonho, tosco e encantador, homenageado em comoventes cenas finais que Fellini não teria desdenhado.
Numa arriscada sequência, Scola coloca Fellini a fugir do seu próprio funeral e a perder-se nos agora abandonados estúdios onde outrora criara as suas esplêndidas fantasias. A deambulação é interrompida por uma longa montagem dos filmes do mestre, num jorrar de memórias, num desfile (que faz lembrar a cena final de 8 ½) e, mesmo no final encontramos Fellini na praia, sentado na cadeira do realizador e a contemplar um belo entardecer de cartão.
“Que Estranho Chamar-se Federico”
Realização: Ettore Scola
Distribuição: Alambique

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