O lado selvagem
Texto: NUNO CARVALHO
O mexicano Alejandro González Iñárritu é um realizador cujos filmes causam sempre num espectador que não se deixe iludir pelo seu “aparato” uma sensação de uma certa vacuidade. Assim sucedia no oco Babel (2006), um filme que nem sequer elaborava sobre o nada de que estava cheio, mas também, por exemplo, em Biutiful (2010), de uma fealdade niilista desnecessária, ou mesmo no sobrevalorizado Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), que no ano passado arrebatou quatro Óscares, incluindo o de realização, mas que apenas se mostrou capaz de cativar os que se deixaram seduzir pelo seu existencialismo light e pseudointeligente. E, como num ato de fé consideravelmente delirante, a Academia voltou neste ano a ver talento em The Revenant: O Renascido, a sua mais recente obra, que, pese embora a oleadíssima e poderosa máquina promocional que tem por detrás, e um coro apologético de jornalistas deslumbrados que macaqueiam as opiniões uns dos outros, não é muito mais do que um zombie cinematográfico, ou seja, um objeto relativamente desalmado e estéril.
A história centra-se em Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um explorador experiente de uma companhia de caçadores que buscam peles de animais perto da fronteira com o Canadá, em 1823, e que, depois de ser violentamente atacado por uma ursa-cinzenta e ficar gravemente ferido, é deixado para trás, apenas acompanhado por dois homens que aguardam a sua morte e a quem o capitão da companhia pede que lhe façam um enterro digno. Porém, quando esses dois homens o abandonam, dando-o como irrecuperável, Glass agarra-se ao desejo de vingança como móbil para conseguir sobreviver.
Parcialmente baseado no livro homónimo de Michael Punke (inspirado em factos reais), The Revenant: O Renascido é, como bem notou uma jornalista do The Guardian, uma espécie de pain porn. Aquilo que podia ser uma meditação sobre o poder da vingança e o ensinamento bíblico de que esta compete a Deus e não deve ser feita pelas próprias mãos em causa própria redunda num exercício de assinalável fotogenia mas superficial e que parece só estar interessado nas provações físicas e no sofrimento na sua vertente mais gráfica, obscena e sanguinária. Nesse sentido, está perto de outras experiências cinematográficas com a mesma noção literal e espetacular da dor e da tortura como sejam Apocalypto (2006) e A Paixão de Cristo (2004), ambos de Mel Gibson. Quanto a Leonardo DiCaprio, irá certamente ganhar o Óscar, mas a verdade é que este é até dos seus papéis menos interessantes (não é muito mais do que uma proeza física), sobretudo se pensarmos, quanto mais não seja, nas suas interpretações em filmes como O Aviador, The Departed – Entre Inimigos, O Lobo de Wall Street (todos de Martin Scorsese) ou até mesmo Apanha-me Se Puderes, de Steven Spielberg. Provavelmente vai suceder o que sucedeu em 2013 com Ang Lee, que depois de uma carreira recheada de bons filmes ganhou o Óscar de melhor realizador com A Vida de Pi, aquele que é simplesmente o seu pior filme. Noutras mãos este The Revenant: O Renascido poderia até ser um fértil cruzamento entre The Call of the Wild, de Jack London, e Michael Kohlhaas, de Heinrich von Kleist, mas nas de Iñárritu limita-se a apelar ao voyeurismo sádico do espectador.
“The Revenant: O Renascido”
Realização: Alejandro González Iñárritu
Com Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter
Distribuição: Big Picture
(2 / 5)

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