Anda um outro “crash” a pairar por aí…
Texto: NUNO GALOPIM
A história foi começando entre uma garagem no Lumiar (que chegou a gerar um ataque de asma), um espaço de ensaio encontrado na Costa da Caparica, usado naqueles serões de segunda-feira em que a televisão reflete mais sobre futebol do que o resto do mundo e, um pouco depois, um restaurante nas Caldas da Rainha… E aqui atenção que estavam já em região demarcada de uma das mais importantes movimentações pop/rock nacionais, em sector alternativo, com resultados que vale a pena recordar entre finais dos oitentas e inícios dos noventas. O power trio inicial estava transformado em quinteto. A banda sem nome agora tinha um, escolhido a votos. E agora, pouco mais de dois anos depois do início da história, preparam-se para apresentar o seu álbum de estreia. Como eles chama-se Democrash. E faz som esta noite no Sabotage Club, em Lisboa.
Ao ouvir o seu rock claro e seco, sem adornos maiores e herdeiro de um viço que lembra os pioneiros punk dos dias de glória do CBGB em Nova Iorque. “Poderá não ser para todos de uma forma consciente, mas é certo que, para quase todos, as bandas desses dias de glória são referências incontornáveis: Ramones, Talking Heads, B-52’s, Television”, explicam à Máquina de Escrever, acrescentando que “há uma energia quase punk na forma como as músicas se formam”. Um retrato mais completo da suas heranças passa por um caldeirão de referências pessoais que inclui ainda nomes como Frank Zappa, Pavement, Syd Barrett, Tim Maia, Pixies, Black Keys, os Byrds ou os Chic.
Em tempos frequentaram os clubes de rock que o país colocava no mapa. Alguns foram “bastante ao Rock Rendez Vous, e o Francisco até chegou a ser jurado de um concurso quando tinha uns 20 aninhos”. Mais tarde andaram pelo Johnny Guitar. E entre eles há quem não seja absolute beginer… Octavio Nunes, o vocalista e também guitarrista, “esteve nos Red Beans e noutras bandas”. Ricardo Rezende (baixo) “teve vários projectos, no Brasil e em Portugal, e tem outro chamado Énoise em que faz música para filmes”. Rui Garrido (guitarra) e Vitor Martins (saxofone e percussão) “tocaram com os Falhumana”. Francisco Camacho (bateria) “não tocava regularmente com ninguém há mais de vinte anos”.
Todo este conjunto de histórias pessoais e referências deixa clara outra das características dos Democrash, com a sua dose de invulgaridade para um grupo estreante: todos têm mais de 45 anos. O que junta cinco músicos ao fim de todo esse tempo? “Muitos anos sem se ter uma banda”, explicam. E, depois, o facto de terem encontrado “finalmente pessoas com a mesma forma de encarar uma aventura destas” e nesta altura das suas vidas: “Passar para as cordas das guitarras e para as peles da bateria o que temos dentro da cabeça, e o mais fielmente possível, é uma espécie de psicanálise auditiva. O que faz com que se tenha uma banda com estas idades é também a vontade de encontrar um escape. Tocar música é uma óptima terapia. Mas na realidade só nos apercebemos da idade que temos quando precisámos de carregar os amplificadores às costas pela primeira vez. Mas já não pesam tanto”, confessam.
Uma aventura com estas características numa etapa em que as carreiras profissionais estão habitualmente no seu auge obriga a uma boa gestão do tempo e das prioridades. “Não é tão difícil como parece” porque, como nos contam, ensaiam “à noite e os concertos também são todos depois da 22.30”. Seria mais difícil se algum deles “fosse padeiro ou porteiro de uma discoteca”. Às vezes, um ou outro “tem imprevistos profissionais e falta aos ensaios”, mas apesar de tudo garantem “que têm sido bastante regulares”. No fundo, o que desejam é tocar apenas em sítios onde se sintam “confortáveis, como o Sabotage, por exemplo”. Não se sentem “minimamente na obrigação de tocar aqui ou acolá, porque tem de ser ou porque há uma tournée a cumprir”.
E a edição de um disco coloca a fasquia num outro patamar de compromisso? “Não se for no sentido de que temos de pugnar por uma carreira no mundo da música”, respondem. Editar um disco permite terem a sua música “num registo o mais bem feito possível”, como idealizaram a dada altura e concretizaram em estúdio com Joe Fossard como produtor. Mas essencialmente serve para se poderem “lembrar, daqui a 30 anos, de como é que as músicas se tocavam” por estes dias. Sobre os dias do futuro e das ambições que esta música possa transportar dizem ainda: “Uma das coisas engraçadas de fazer parte de uma banda que começa a merecer alguma atenção é não ter a mais pequena ideia de até onde a coisa pode ir… O mundo em que vivemos é muito rápido, para o bem e para o mal. Por isso, tão depressa podemos levantar voo amanhã como cair no esquecimento total já na semana que vem. Mas vivemos bem com essa incógnita. Aí, a idade é uma boa aliada.”
E agora falta só explicar o nome… “Basicamente houve uma votação (cada um escolheu uma data de nomes) em que se apuraram os cinco nomes mais votados e, no fim, escolheu-se um que não estava na lista (no tema Democrash está lá um dos nomes que esteve quase para ficar)… Este nome é uma mistura de várias coisas: demonstração, demo (de cassete), democracia, demónio, dê-mo-café-sachavôr) com “crash”, que dá aquele ar punk à coisa. A sonoridade da palavra também foi importante na escolha… Mas, enfim, um nome tem a importância que tem. Não é por um tipo se chamar Lourenço ou Celso que é mais feliz ou se safa melhor na vida. Já o apelido é outra coisa. Daí o “crash” soar tão bem…”
Hoje, às 22.30, apesentam-se ao vivo no Sabotage Club, em Lisboa

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