Últimas notícias

No centenário de Henri Dutilleux

Texto: NUNO GALOPIM

No momento em que se assinala o centenário do compositor francês recordamos “Correspondences”, obra cuja gravação ele mesmo acompanhou já na reta final da sua vida.

Quantas vezes está um compositor presente nas gravações de obras suas? Já na reta final da sua vida, Henri Dutilleux (1916-2013) marcou presença nas sessões que, sob direção de Esa-Pekka Salonen (um confesso admirador seu), registaram não apenas a esteia em disco do ciclo de canções Correspondances (com a presença sempre magnífica de Barbara Hanningan) e duas outras obras orquestrais, em todos os casos contando com a Orchestre Philharmonique da Radio France. No momento em que passa o seu centenário, esta recente edição no catálogo da Deutsche Grammophon pode ser um ponto de partida para um (re)encontro com a sua obra.

Um dos grandes herdeiros de Debussy, Ravel e Bartók, Dutilleux foi um nome particularmente ativo na segunda metade do século XX. E, num tempo em que Boulez e Messiaen representavam polos maiores da criação musical francesa, revelou uma voz marcadamente pessoal e diferente.

Nascido a 22 de janeiro de 1916 em Angers, Maine-et-Loire (França), venceu em 1938 o importante Prémio de Roma, não terminando a residência a que teria direito por força da eclosão da II Guerra Mundial. Cumpriu serviço militar numa unidade médica, regressando a Paris em 1940 onde, dois anos depois, dirigia o coro da Ópera. Chefiou os destinos da produção musical na Radio France de 1945 a 1963 e ensinou composição na École Normale de Musique de Paris de 1961 a 1970. Pela sua obra como compositor passa sobretudo um trabalho focado na exploração de texturas e dos ritmos.

Depois de um longo período afastado do trabalho de composição para voz (que considera ser todavia o mais belo instrumento de todos), Dutilleux recebeu da Berliner Philharmoniker o pedido de uma nova obra para voz e orquestra, cabendo a estreia (em 2003) à orquestra berlinense, dirigida por Simon Rattle, e contando com Dawn Upshaw como solista. Apesar de “pedir” o título a um poema de Baudelaire, o ciclo Correspondances junta na verdade textos de Soljenitsine, Rilke, P. Mukherjee e Van Gogh. Dois deles são excertos de cartas, a noção de “correspondência” não se esgotando todavia nesse facto, procurando por um lado os textos uma ideia de “correspondências” entre os sentidos e a música uma lógica natural de “correspondência” com os sentidos das palavras.

O alinhamento deste disco junta ainda The Shadows of Time (1997) e o belíssimo Tout Un Mond Lointain (usando também o título de um poema de Baudelaire). Este último, pensado como peça orquestral com violoncelo solista, partiu de um convite de Mstislav Rostropovich feito em 1961, concretizado alguns anos depois, conhecendo estreia mundial no festival de Aix-en-Provence em 1970. Pela música passa a “voz” de um compositor (e os ecos das suas heranças), revelando-se marcas, caminhos e ideias que ajudam a compreender a admiração confessa de Salonen, que de certa forma se projeta na alma de obras como as que recentemente gravou em Out of Nowhere, um dos mais interessantes discos lançados em 2012.

“Correspondences”, de Henri Dutilleux, pela Orchestre Philharmonique da Radio France, dirigida por Esa-Pekka Salonen e com a presença vocal de Barbara Hanningan, foi editado em CD pela Deutsche Grammophon, em 2013

Deixe um comentário