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Para baralhar o que sabemos sobre a “pop art”

Texto: JOSÉ RAPOSO

Numa exposição que promete abalar alguns dos preconceitos em relação à Pop Art, The World Goes Pop vem-nos dizer que há vida para lá de Warhol.

"Doll Festival", 1966. Hyogo Prefectural Museum of Art, do The Yamamura Collection

The Ey Exhibition: The World Goes Pop (na Tate Modern) é uma exposição destinada a surpreender e a baralhar algumas das narrativas mais dominantes e estabelecidas em torno da Pop Art. Não se trata de um reescrever da história, ou de impor um novo olhar em relação a um conjunto de práticas artísticas geograficamente dispersas, mas antes o de expandir os horizontes de um movimento verdadeiramente global, que sendo de Londres ou Nova Iorque afinal também vibrava no Irão e na América do Sul. Nomes como Andy Warhol, Roy Lichtenstein, David Hockney, Richard Hamilton, ou Claes Oldenburg – figuras absolutamente centrais no desenvolvimento de uma estética recetiva ao vocabulário visual emergente da sociedade de consumo – dão assim lugar a nomes como Parviz Tanavoli, Keiichi Tanaami, Angel Garcia ou Isabel Olivier, artistas com uma ligação porventura mais nebulosa com o grande público (senão mesmo com o mercado), mas que em diferentes contextos e com diversos propósitos se apropriaram do aparato mediático do mundo da moda, da publicidade, ou do design, transformando-o numa ferramenta critica ao serviço do confronto político e ideológico.

É certo que a proximidade ou mesmo continuidade entre a Pop Art e a (então) chamada baixa cultura é um dos aspetos decisivos daquele que sempre foi historicamente um posicionamento problemático, relativamente à contaminação das mais diversas áreas de expressão popular pelos interesses económicos do capitalismo – “fazer dinheiro é arte”, como o próprio Warhol um dia profetizou -, mas a curadoria de Jessica Morgan e Flavia Frigeri vem desestabilizar leituras mais monolíticas e focadas no que se ia fazendo nas grandes metrópoles do ocidente. Trata-se de uma proposta expositiva que reúne obras de 67 artistas ao longo de 10 salas, segundo uma série de temas que dão a ver uma grande variedade de obras e diversidade de meios – “Pop Polítics”, “Pop Bodies”, “Pop at home”, “Pop Crowd”, são algumas das portas de entrada para um imaginário atravessado pelas mais variadas abordagens estéticas, que se estendem da pintura à colagem, passando pela instalação e vídeo. Ainda que o impulso da exposição esteja mais próximo da expansão dos horizontes da Pop Art do que polémicas revisionistas, é certo que muitos dos artistas presentes não foram no seu tempo recebidos enquanto artistas Pop. Numa das entrevistas recolhidas para o catálogo da exposição, Manolo Valdés (um dos membros do coletivo Equipo Crónica, fundado em Valência em 1965 e contestatário das políticas de Franco, reconhecido pela adopção de uma linguagem plástica embebida no quotidiano) dá voz a essa tensão: “Nunca nos considerámos artistas pop. O mundo coloca-te numa categoria, mas por mais que aceitemos isso nunca trabalhámos sobre as premissas dessa etiqueta. A princípio havia a ‘nova figuração’, depois veio o ‘realismo’, e finalmente a ‘pop’; mas nunca encaixámos nessas categorias, simplesmente desenvolvemos uma nova forma de entender a figuração”. Mas um dos méritos de The World Goes Pop é mesmo o de mostrar que um grupo bastante heterogéneo de artistas reagia de forma bastante semelhante a problemas bastante diversos.

O espaço do corpo


Isabel Oliver, “Happy Reunion (da série “La Mujer”) 1970–3, Coleção privada


Isabel Oliver, “Beauty Products (da série “La Mujer”) 1970–3, Coleção privada


Bernard Rancillac, “Pilules capsules conciliabules”, 1966

Um dos núcleos expositivos mais conseguidos é aquele que apresenta trabalhos que fazem do corpo e do seu lugar no espaço doméstico um território fulcral na negociação entre o indivíduo e a sociedade. Com uma forte presença de artistas mulheres, a exposição contribui também para uma importante renovação nas discussões em torno de um movimento desproporcionalmente marcado por artistas do sexo masculino. Há obras verdadeiramente marcantes. Isabel Oliver apresenta um poderoso retrato da condição da mulher na sociedade espanhola na série intitulada La Mujer, onde a receção da influência de Salvador Dali de acordo com uma sensibilidade pop (Happy Reunion, acrílico sobre tela), ou o confronto com os ideias de beleza impostos pela indústria dos cosméticos (Beauty Products, acrílico sobre tela), se revelam exemplos acabados de todo um programa critico face às estruturas do poder. Em Pilules Capsules Conciliabules, de Bernard Rancillac, uma das conquistas mais importantes dos anos 1960 é abordada com o humor e paródia que nos é familiar na pop art: numa composição evocativa quer da natureza quotidiana quer “cósmica” do aparecimento da pílula contracetiva, Rancillac assinala um momento importante da emancipação feminina. Esse é justamente um dos traços mais marcantes da exposição, pela forma como coloca no centro da discussão um conjunto de estratégias e práticas artísticas que fizeram da pop um espaço contestatário e aberto e recetivo às coisas do mundo.

A política da pop

A apropriação dos métodos da pop art por artistas oriundos da Europa de Leste apresenta-nos outra dimensão da natureza política desta pop global. Os objectos e produtos de consumo já não nos surgem naquela ambígua posição de celebração do movimento da máquina e das cores intoxicantes dos objectos de superfície, aparecendo antes como extensões de uma ordem económica obscena e totalitária que substitui o mundo natural por um universo feito à imagem de espelhos, representações, imagens. Natalia LL, artista polaca co-fundadora da galeria PERMAFO – um importante ponto de encontro de uma cena artística com forte pendor conceptual – apresenta uma obra em vídeo que confronta o espectador com esta realidade. Em Consumer Art (no.24), uma modelo consome uma banana de forma sexualmente provocadora, num comentário irónico à circulação de bens de consumo num contexto altamente politizado: sob influência do governo soviético o consumo de determinado tipo de comida, roupa, ou música adquiria uma redobrada relevância nos países de leste. Obras como Consumer Art, muito em função de uma sensibilidade e atenção particulares em relação às movimentações da cultura popular e às implicações políticas então prometidas pela livre circulação de bens, acabam por expandir o horizonte de acção de uma pop art que não poucas vezes se deslumbrou consigo mesma.


Teresinha Soares, “Morrem Tantos Homes e Eu Tao Aqui So” (Vietnam series), 1968

Esta ligação da pop art à realidade política é ainda palpável quando olhamos para o panorama da América do Sul, onde encontramos uma atividade esfuziante, caracterizada aliás por uma prática artística vincadamente local mas em permanente diálogo com o que de melhor se ia fazendo no contexto internacional. Teresinha Soares é uma das artistas brasileiras que melhor resposta dá ao “desafio” de encontrar possibilidades criticas no espaço da pop: na série Vietnam, obras mixed media de largas dimensões, apresenta ecos do conflito visto do Brasil a partir de um conjunto de referências oriundas do mundo do cinema e da fotografia.

A pop em movimento

Os trabalhos em vídeo de maior relevância são mesmo os que veem do Japão – e não esquecer que a exposição conta ainda com um fortíssimo programa paralelo de cinema japonês, onde se encontram nomes como Tatsuo Shimamura ou Takahiko Iimura -, no qual se pode testemunhar um corpo de trabalho altamente curioso e em constante reacção às imagens do ocidente. Keiichi Tanaami, um artista com inícios no design gráfico e que de 1965 em diante se dedicou primordialmente ao vídeo, é um dos principais instigadores desse diálogo. Diretor da Playboy japonesa, Tanaami chegou mesmo a visitar a mítica Factory do Warhol, sendo então exposto à riqueza iconográfica do ocidente, que acabaria por inserir ao seu próprio trabalho. Em Commercial War, através da justaposição de ícones do ocidente como a Coca-Cola ou o Super-Homem com a linguagem do anime, oferece um poderoso comentário à circulação de imagens enquanto gesto colonizador. Com um período de ocupação americana que se estendeu 7 anos após o conflito da Segunda Guerra Mundial, o Japão sempre foi na verdade um território particularmente sensível à presença da cultura popular americana. Fora do contexto do vídeo mas com uma obra absolutamente fulcral no desenvolvimento de uma proto-pop, Ushio Shinohara é mesmo a figura central neste diálogo entre ocidente e oriente. Doll Festival evoca essa tensão de forma particularmente exuberante em 3 painéis sobre contraplacado, onde várias figuras recortadas se apresentam lado a lado vestidas com trajes orientais e ocidentais, num piscar de olho à ocidentalização do oriente.


Foto: Tate Photography

Numa era de comunicação verdadeiramente global, World Goes Pop convida-nos a olhar para lá dos lugares habituais, mostrando-nos as possibilidades da Pop em toda a sua dimensão.

1 Comment on Para baralhar o que sabemos sobre a “pop art”

  1. Adorei!Obrigado por partilharem este artigo sobre um “outro lado da POP ART” da qual sou um grande admirador!

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