Há vida no negro regresso dos Suede
Texto: PEDRO PRIMO FIGUEIREDO
Bloodsports, de 2013, foi um mimo para os fãs e uma alegria para os devotos de música pop britânica – permitiu reconciliar os Suede com a sua vida enquanto banda e, tão ou mais importante, com os palcos. É um disco onde à escrita do vocalista e líder de sempre, Brett Anderson, se juntava, em oito das dez faixas, o toque criativo de Neil Codling, teclista e guitarrista que se juntou à banda em 1995 e viria a sair em 2001, antes do declínio e do que se temia ser um último respirar dos Suede: A New Morning, de 2003, quinto de originais, foi o canto do cisne do grupo. Até 2010, em palco, e até 2013, no que a novos lançamentos disse respeito.
Em Night Thougts, agora editado, os Suede trocam palavras de luxúria e hedonismo por uma nova ideia de parentalidade (Anderson foi pai há pouco tempo) e relativo conforto, embora com o medo da perda, da morte, da indiferença, a espreitar em cada refrão.
Permanece inalterada a destreza pop nos Suede de 2016, mantém-se igual o particular apreço por refrães e um sempre presente abraçar do legado próprio. As comparações entre o par Bloodsports/Night Thoughts com os dois primeiros álbuns do grupo, Suede (1993) e Dog Man Star (1994), não são inocentes: no primeiro de cada par há um explodir pop e singles fortes, à prova de bala. Enquanto álbum, não parece haver uma tão evidente ideia de viagem – não lhe chamaremos álbum conceptual, apenas álbum – como sucede com Dog Man Star e este Night Thoughts.
When You Are Young é uma abertura perfeita neste comboio pop que os Suede nos transportam: tem cordas, intensidade, é um pedaço de arte lento que traz o grupo até Outsiders e No Tomorrow, dois dos temas mais rápidos e imediatos de Night Thoughts. Este último, em concreto, é uma delícia que podia ter sido escrita em 1993 mas que continuará um bálsamo, imaginamos, daqui a 50 anos – é um tema rock guiado por uma guitarra viciante e pela voz (e que bem tem envelhecido esta voz) de Brett Anderson.
Os pontos altos do disco estão na primeira metade e na sua reta final: até à faixa cinco, a sofrida e bela I Don’t Know How to Reach You, é tudo do muito bom para cima. Depois, um par de temas mais lentos e menos inspirados fazem temer uma reta final mais esquecível, mas eis que Like Kids, o nono tema, nos devolve o álbum que desejámos.
When You Were Young, a continuação do tema inicial, antecede The Fur & The Feathers, épico encerramento: grande, intenso, uma viagem dentro da viagem que acaba numa mescla de cordas, voz e bateria, num dos melhores momentos do disco e, inclusive, da segunda vida dos Suede.
Quem nunca foi fã, não encontrará aqui uma epifania que abra portas a um mundo até ver não percorrido. Os Suede não fazem discos ao sabor das tendências do momento, não piscam o olho à novidade da estação, e por isso já não são, como na primeira metade dos anos 1990 e no desbravar da britpop, a última Coca-Cola no deserto. São, sim, resistentes de uma vida de excessos, um pilar de bom gosto, a garantia de que é possível evoluir na continuidade, sem estupendas reinvenções (para isso a pop britânica tem e teve os Radiohead e os Blur) mas com grandes canções sempre por perto.
Em 1991, foi ao som de Quicksand, de David Bowie, que Brett Anderson e Bernard Butler desenharam interiormente o desejo de serem mais que amigos. Aí nasceram os Suede. Em 1993 surgiu o primeiro álbum, Butler saltou fora no ano seguinte – ainda a tempo de parir Dog Man Star – e a partir daí há muita história e, acima de tudo, muitas canções. O interregno após A New Morning serviu para devolver o ímpeto pop a Brett Anderson. Night Thoughts acaba por ser uma carta de despedida de filhos órfãos do seu ídolo – sempre Bowie – e mais uma prenda para os fãs de sempre. Nem tudo é perfeito no disco, como na vida, mas os Suede não estão para atirar a toalha ao chão. Nem nós.
Suede
“Night Thoughts”
LP, CD e DD Warner Music Portugal
★★★★


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