A arte que é a vida que é a arte
Texto: HELENA BENTO
Trinta anos após a morte do dadaísmo, Tristan Tzara, que muitas vezes era visto pela opinião pública como o “pai” de Dada e seu principal porta-voz (foi ele o autor do célebre Manifesto Dada 1918, texto fundador do movimento) dizia ao escritor francês Georges Ribemont-Dessaignes que o dadaísmo não tinha sido somente um movimento que tudo negava, desde a guerra, os valores tradicionais e os fundamentos da civilização ocidental à própria linguagem, fazendo “tábua rasa” do passado. “Tu próprio escreveste algures que as ruínas, quando fazem uma pilha, constituem por sua vez uma construção – uma construção de ruínas, claro está, mas uma construção, apesar de tudo”, dizia-lhe Tzara. Esta ideia de construção através da destruição – a partir das ruínas, da acumulação de detritos – da destruição enquanto gesto indissociável de qualquer processo criativo, foi inúmeras vezes trazida a debate pelos dadaístas e os especialistas em literaturas de vanguarda Henri Béhar e Michel Carassou
retomam-na em Dada – Uma História da Subversão, editado pela Antígona no final do ano.
O nome “Dada” surgiu pela primeira vez em Zurique, em 1916, no número único da revista de feição modernista Cabaret Voltaire, que reunia poetas e pintores de vanguarda refugiados na Suíça. Recorde-se que nessa altura, volvidos dois anos sobre o início da I Guerra Mundial, a Suíça era considerada território neutro. Em Zurique, juntaram-se alemães (Hugo Ball, Hans Richter e depois Richard Huelsenbeck), um alsaciano (Jean-Hans Arp – a mãe era francesa e o pai alemão) e dois romenos (Tristan Tzara, Marcel Janco). A eles associam-se depois os europeus refugiados em Nova Iorque desde 1915 – Francis Picabia, Marcel Duchamp, Albert Gleizes, Arthur Cravan e Jean Crotti. Entretanto, Berlim e Colónia ganham também os seus representantes, que asseguram a publicação de panfletos, cartas e revistas. No final da guerra, Tristan Tzara instala-se em Paris, o grupo Littérature (André Breton, Louis Aragon, Philippe Soupault e Paul Éluard) acolhe-o e a capital francesa torna-se, a partir daí, casa da “central dadaísta”. Esta geografia complexa é apresentada na introdução do livro e permite perceber um dos traços mais característicos do dadaísmo. Dada, escrevem os autores, “é essencialmente uma rede internacional, dizendo respeito a todos os domínios da estética e da vida”. E sendo uma rede internacional, não dispunha de líderes, hierarquias, regras, estrutura ou programa. “Todos os membros do movimento são presidentes do mesmo. Cada dadaísta permanece inteiramente livre naquilo que faz e nos gestos que pratica, quer aja no quadro da atividade coletiva ou fora dele”, escrevem os autores.
Elencar os traços mais característicos do dadaísmo, os seus “múltiplos rostos” – não esquecendo as suas inúmeras fraquezas, fantasias e contradições, é precisamente aquilo a que se propõem Henri Béhar e Michel Carassou em Dada – Históia de uma Subversão. Um e outro comprometem-se também a não esquecer os vários protagonistas do movimento, apesar de a tarefa ser difícil, já que o movimento reuniu artistas de diversas nacionalidades que se exprimiram em várias línguas e revistas de carácter efémero, tendo-se entretanto perdido o rasto à maioria delas.
Dividido em três partes – “A subversão dadaísta”, “A explosão da linguagem” e “Um estado de espírito”, cada uma delas subdividida em três capítulos numerados, este longo ensaio de cerca de 220 páginas sobre o movimento que antecedeu o surrealismo vem colmatar uma falha nos estudos sobre o dadaísmo. “A violência e também a futilidade de tais palavras explicam porventura que Dada só muito acidentalmente tenha dado lugar a uma interrogação de fundo sobre a sua natureza essencial e que haja muito poucos comentários de valor a seu propósito, salvo os artigos vingativos oriundos de uma crítica jornalística ligada às aparências imediatas”, lê-se na introdução. Uma das publicações que os autores referem, anteriores à publicação em França, em 2005, deste ensaio, é o Journal du mouvement Dada de Marc Dachy, um dos maiores estudiosos do dadaísmo, falecido em outubro do ano passado.
Mas Dada – Uma História da Subversão acaba por ter muitos outros méritos além de ter vindo suprir essa lacuna. Fugindo aos lugares comuns e às conclusões fáceis, os autores debruçam-se sobre uma série de questões caras ao dadaísmo, como a sua negatividade e espírito subversivo, o contexto de guerra e a sua influência sobre os dadaístas, a crise de valores a que então se assistia, a revolta, o desprendimento, a especulação, a dúvida, o ceticismo, a descrença, a arte como estando ao nível de qualquer outro aspeto do quotidiano (“para Dada, viver e criar eram uma e a mesma coisa”), a dialética destruição-criação, o dadaísmo como “estado de espírito”, a crítica da linguagem, a negação da lógica cartesiana e da razão, o riso de Dada, o niilismo de Dada; as manifestações e os espectáculos, o escândalo e a violência gratuitos, a dissolução do grupo, o aparecimento dos primeiros surrealistas. Uma das conclusões a que os autores chegam é que embora prevalecesse em Dada um espírito de destruição e negação, negação da velha ordem, dos valores em que assentava a sociedade ocidental da época, da razão e do progresso, do futurismo e da maquinaria e de todos os outros ismos, este espírito era, no fundo, um espírito alegre e otimista. Um espírito, acima de tudo, que se batia pela vida e pela criação. Como escrevem Henri Béhar e Michel Carassou: “Ao demolir, Dada ergue um imenso impulso criador. Será sempre indispensável destruir para impedir a criação de coagular, de se separar da vida, de engendrar a morte. Dada, ao que parece, tem um futuro risonho”.
Henri Béhar e Michel Carassou
“Dada – História de uma Subversão”
Tradução de: José Miranda Justo
Antígona, 272 páginas
ISBN 978-972-608-268-2


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