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Berlim e as outras histórias de Christopher Isherwood

Texto: NUNO GALOPIM

É através de “Adeus a Berlim” que muitos descobrem Isherwood. Fica aqui um panorama do que da sua obra está já publicado entre nós e deixa-se uma sugestão sobre por onde retomar a sua publicação em português.

Foi no número 17 de Nollendorfstrasse, no bairro de Schöneberg, que morou o escritor britânico Christopher Isherwood quando viveu em Berlim. A sua passagem está assinalada numa placa junto à porta. As experiências que ali tiveram polo central inspiraram os seus célebres contos Mister Norris Muda de Comboio (1935) e Adeus a Berlim (1939), muitas vezes publicados em conjunto sob o título The Berlin Stories e que inspirariam mais tarde o filme Cabaret, de Bob Fosse. A passagem de Isherwood por Berlim serve também o mais autobiográfico Christopher and His Kind (de 1976).

Christopher Isherwood chegou pela primeira vez a Berlim ainda nos anos 20, na cidade encontrando um sentido de liberdade que lhe permitiria descobrir-se a si mesmo de outra forma que até então não havia conseguido na sua Inglaterra natal. Respirou o ar da República de Weimar, abandonando a cidade em 1933, ano no qual Hitler ascendeu ao poder. As suas histórias e memórias de Berlim cruzam a ficção com uma forte presença do real, servindo-nos retratos de um tempo de mudanças na cidade, as suas gentes e lugares.

Encontrei-o também ali pela primeira vez, numa livraria não muito longe da casa em que em tempos ali habitou. Era um daqueles livros dois em um, juntando as duas “histórias de Berlim” num mesmo volume. A sugestão vinha através de David Bowie, que em diversas ocasiões mencionara que se mudara de Los Angeles, onde viveu uma das etapas mais assombradas da sua vida, em meados dos anos 70, para Berlim depois não só de ter lido os livros de Isherwood, como de com ele ter conversado após uma atuação em 1976 nos bastidores da sala onde acabara de dar um concerto. Falaram da cidade, das memórias, das ideologias que ali se cruzavam quando Isherwood lá viveu. E o escritor, que tantas vezes se referia a si mesmo como sendo uma câmara que tudo observa e depois retrata, não fez mais do que regressar às palavras e ideias que em tempos registara e das quais nasceu um dos mais importantes retratos da cidade nos anos finais da República de Weimar. As histórias de Isherwood levaram então Bowie a residir, durante alguns anos, no número 155 da Hauptstrasse, entre tantos outros berlinenses anónimos, criando ali alguns dos discos mais marcantes da sua obra. As canções e referências de Bowie levaram-me depois de volta a Isherwood. E em Berlim encontrei um dos grandes autores do século XX de quem entre nós apenas uma magra representação da sua obra está já traduzida, entre lançamentos nos Livros do Brasil, Círculo de Leitores, Notícias e Labirinto nas décadas de 80 e 90 e os quatro em livros que a Quetzal foi lançando entre 2011 e 2012, numa coleção todavia interrompida após o lançamento de Mister Norris Muda de Comboios.


Christopher Isherwood por Don Bachardy

Christopher Isherwood nasceu em Wyberslegh Hall (no Cheshire, em Inglaterra) a 20 de Agosto de 1904, numa família com pai militar, conhecendo nos dias de infância uma existência algo itenerante entre várias casas, em diversas localidades, fixando-se na localidade em que nascera após a morte do pai, que ocorreu durante a I Guerra Mundial. W.H. Auden, que seria um dos seus maiores amigos e companheiros de escrita, foi conhecimento travado ainda nos dias de escola. O reencontro entre ambos já depois de passada uma etapa na universidade aprofunda a velha amizade, daí nascendo a ideia de uma primeira viagem a Berlim, que se materializa em finais dos anos 20. É então que Isherwood vive finalmente, e com outra tranquilidade, a sua homossexualidade, travando conhecimentos e vivências que anos depois ganhariam voz de personagens e desenhariam cenários em narrativas pelas quais traduziu a pulsação de liberdade que animava a cidade nesses tempos. Mudou-se para ali, absorvendo ainda mais os hábitos e estilos de vida berlinenses de então, numa altura em que assistiu à progressiva tomada de protagonismo do partido de Hitler no panorama político alemão.

Depois de deixar Berlim em 1933 (na iminência da subida ao poder de Hitler), e antes de encontrar nova morada nos EUA, onde se fixaria, encontrando na Califórnia um segundo foco de temas e personagens, Christopher Isherwood passou por uma breve estada na região de Sintra. Vindo de Atuérpia chegou por barco a Lisboa em finais de dezembro, partindo nesse dia para Sintra, hospedando-se inicialmente num hotel, encontrando logo depois uma residência na Villa Alecrim do Norte, em São Pedro. Passou ainda algum tempo na Bélgica, antes de cruzar o mar e ali encontrar nova casa, entre o mundo dos livros e o do cinema.

Auden, com quem dividiu a autoria de vários textos dramatúrgicos (entre eles The Dog Beneath the Skin, The Ascent of F6 ou On the Frontier) teve, tal como nos dias da primeira viagem a Berlim, um papel importante na partida para os Estados Unidos. Viveram juntos em Nova Iorque, só depois tendo Isherwood encontrado uma residência estável na Califórnia.

A obra que assinou na etapa em que viveu nos EUA (a mais longa da sua carreira, já que ali se fixou definitivamente), e que se manifesta em livros como Down There on a Visit (de 1962) ou Um Homem Singular (1964), fez com que tanto os norte-americanos como os ingleses o reivindiquem hoje como seu. O seu percurso de vida pós-berlinense pode ser encontrado não apenas na sua escrita (que tanto na ficção como entre memórias nunca se afastou de uma profunda pulsão autobiográfica), mas também no belíssimo documentário de 2008 Chris and Don: A Love Story, de Tina Mascara e Guido Santi (exibido na edição de 2009 do Queer Lisboa), no qual se recorda o longo relacionamento entre o escritor e o pintor Don Bachardy.


Christopher Isherwood e Don Bachardy, pintados por David Hockney

O cinema desempenhou um papel importante na obra de Isherwood, não só como fonte de rendimentos em alguns trabalhos de escrita, como servindo de cenário para alguma ficção (como se lê em Prater Violet) ou através de adaptações que levaram depois as suas narrativas a ainda mais vastas plateias. E Berlim volta aqui a ganhar voz protagonista.

A capital alemã é cenário de muitos dos seus textos, e talvez o mais célebre (e marcante) de todos seja mesmo Adeus a Berlim, não surpreendendo o facto de ser o livro de Isherwood com mais edições entre nós (três no total). Pequenos contos interligados entre si retratam a vida da cidade entre 1930 e 1933, num tempo de mudanças políticas que culminam com a ascensão dos nazis ao poder. Muitas das personagens partem de figuras reais, com as quais Isherwood conviveu nesse período em que também ele foi um berlinense (a comparação entre a realidade e a ficção surgiria anos depois, assinada pelo próprio, no mais claramente autobiográfico Christopher and His Kind). Judeus, homossexuais e comunistas, assim como figurantes entre cafés, bares e cabarets, passam pela narrativa, o seu quotidiano reflectindo o clima de progressiva intimidação que Isherwood acompanhava na cidade onde também viveu. Isherwood define de facto em Adeus a Berlim um espantoso retrato de uma cidade em mudança perante a chegada de uma nova ordem repressiva e conservadora, que depois serviu de base à adaptação da peça I Am A Camera, por John van Durten (em 1951) e, mais tarde, ao filme Cabaret, de Bob Fosse (1972).

Podemos também atribuir novamente cinema – em concreto à estreia em 2010 do magnífico Um Homem Singular, de Tom Ford – o renovado interesse local pela sua escrita que se manifestou no início da publicação de obras suas pela Quetzal, numa coleção lançada precisamente com Um Homem Singular (A Single Man no original), seguindo-se, pouco depois Adeus a Berlim.


“A Single Man”, adaptação de Tom Ford

Encontro à Beira Rio, o terceiro volume desta série de edições recorda um texto que data de 1967 e que então levou Christopher Isherwood a focar as suas atenções em cenário indiano. Residente em Los Angeles há já algum tempo, o escritor inglês não rompia ali contudo em definitivo as suas ligações mais profundas com a identidade britânica, escolhendo como protagonistas dois ingleses. Dois irmãos. Um está prestes a tomar os votos que o afastarão da vida que até então conhecera para passar a integrar um mosteiro na Índia. O outro, mais velho, de visita para o tentar compreender (quem sabe se procurar demover de tamanha decisão)… É com as águas do rio Ganges a seu lado que a narrativa evolui. Uma história que acompanhamos essencialmente entre as cartas que o irmão mais velho troca com a mulher, a mãe e um homem que entretanto conheceu em Los Angeles (onde prepara a rodagem de um filme) e as notas do diário do mais novo que, com sentido crítico, contrapõe a essas palavras uma outra leitura sobre os mesmos factos. De resto é entre jogos de contradições que Encontro à Beira Rio ganha a sua vitalidade. As cartas que o irmão mais velho envia quer para Inglaterra quer para Los Angeles mostram visões diferentes da mesma realidade, a cada uma a sua escrita aplicando um filtro através do qual expressa não o que pensa, mas o que quer que julguem que vê e sente. Não é difícil sentir qual das visões está mais próxima da verdade, mas da multidão de diferenças que afinal moram no seu discurso mais não passa senão a expressão de um conflito maior que, no fundo, vive internamente.

Pela Quetzal surgiria ainda em 2012, nas nossas livrarias, Mister Norris Muda de Comboio, que completa com Adeus a Berlim o seu quadro de ficções com a Berlim da aurora dos anos 30 por cenário.

Muita da obra de ficção de Christopher Isherwood é essencialmente de génese auto-biográfica, o real cruzando-se com personagens e lugares a ele ligadas por memórias, muitas delas vividas na primeira pessoa. Um dos primeiros exemplos dessa relação próxima com as figuras sobre as quais escreve surge logo em O Memorial: Retrato de uma Família (que teve já tradução para português pela Livros do Brasil em 1990). O livro, originalmente publicado em 1932 leva-nos a Inglaterra no período imediatamente posterior ao final da I Guerra Mundial e foca o clima de decadência de uma ordem familiar antiga, tomando como ponto de vista o olhar de um jovem estudante de Cambridge que, de por um lado admira a forma como o pai conduzira uma vida de dedicação e sacrifício antes de morrer na guerra, por outro não deixa de reflectir sobre a demanda tomada, por sua vez, por um grande amigo dele, que partira para Berlim em busca de outra vida e outra liberdade. O conflito entre mãe e filho, que ecoam traços da sua própria experiência, são outra das marcas centrais. Escrito quatro anos depois da sua estreia, em All The Conspirators, O Memorial lançou um caminho que, seguido por muitos outros títulos posteriores, fez de si mesmo uma presença central em grande parte da sua obra.

Originalmente lançado em 1954, The World In The Evening, O Mundo no Crepúsculo (publicado entre nós em 1996 pela Temas da Actualidade) é um romance que toma cenários da América sua contemporânea como pano de fundo. O tempo da acção é o do pós-guerra (II Guerra Mundial, entenda-se), acompanhando um protagonista inglês, de nome Stephen Monk, que durante algum tempo residiu na Califórnia. O seu segundo casamento terminou e, agora, com nova vida encetada na Pensilvânia, seguimo-lo, atormentado por ecos de memórias de um relacionamento com um outro homem, em dias de paz antes da guerra, durante uma visita às ilhas Canárias. O romance segue essa sua nova viagem à descoberta de si mesmo e acompanha uma progressiva adaptação ao quotidiano numa terra nova. Como muitas outras obras de ficção de Christopher Isherwood, há, ao longo das páginas frequentes traços autobiográficos a passar pela caracterização do protagonista desta narrativa.

E com estes títulos de faz a obra de Isherwood publicada entre nós. E agora? Por onde poderia continuar a edição dos seus livros por estes lados… É certo que tanto O Memorial como Mundo no Crepúsculo são títulos importantes, mas de certa maneira tiveram já uma edição, cada um deles, por estes lados. A escolha poderia então recair sobre Christopher and His Kind, o já referido complemento mais claramente pessoal das vivências berlinenses já evocadas entre Mister Norris Muda de Comboio e Adeus a Berlim. Ou, então, algo completamente diferente…

E aí faria uma referência a Prater Violet, romance originalmente publicado em 1945. O tempo da acção situa-se antes do início da II Guerra Mundial. A personagem central é o próprio Isherwood, um escritor com experiência de trabalho entre a publicação de livros e a escrita para o cinema. O universo do cinema é, de resto, central à narrativa, à sua volta surgindo as demais personagens, lugares e situações através dos quais o autor lança uma série de reflexões sobre o mundo contemporâneo, nomeadamente a ascensão ao poder de Hitler na Alemanha e a indiferença internacional que descreve existir durante a década de 30 face à evolução política da Alemanha de então. Em paralelo evolui o acompanhar da criação de um filme e a história da família de um cineasta austríaco que tem uma presença determinante na história que se conta. O romance, uma vez mais apoiado por uma relação com o real, assinala um reencontro de Isherwood com experiências de escrita para o cinema que tivera nos anos 30.

A seguir fica aqui um apanhado das edições portuguesas de Christopher Isherwood:

“O Memorial: Retrato de uma Família” (1932)
Livros do Brasil, 1990
Trad. Maria do Rosário Sousa Guedes

“Mister Norris Muda de Comboio” (1935)
Quetzal, 2012
Trad. Lucilia Filipe
Rev. Pedro Ernesto Ferreira

“Adeus a Berlim” (1939)
Círculo de Leitores, 1986
Trad. Maria Filomena Duarte

Notícias, 1996
Trad. Maria Filomena Duarte
(com o título “Cabaré: Adeus a Berlim”)

Quetzal, 2011
Trad. Filomena Duarte
Rev. João Assis Gomes

“O Mundo no Crepúsculo” (1954)
Temas da Actualidade, 1996
Trad. Luís Serrão
ISBN 972-748-106-X

“Um Homem Singular” (1964)
Labirinto, 1987
Trad. Maria Filomena Duarte

Quetzal, 2011
Trad. Filomena Duarte
Rev. Carlos Pinheiro

“Encontro À Beira Rio” (1967)
Círculo de Leitores, 1995
Trad. Lucília Filipe

Quetzal, 2012
Trad. Lucilia Filipe
Rev. João Assis Gomes

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