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Um circo de assombros, memórias e ausências sentidas

Texto: ANDRÉ LOPES

“Oscar Hocks” é o primeiro álbum que Bianca Casady assina fora das CocoRosie. Sem expetativas, e além de constrangimentos, conseguimos ouvir aqui um clamor criativo em vias de consolidação identitária.

Desde 2004 Bianca Casady e a sua irmã Sierra são associadas a uma estética peculiar que lhes é própria e que encontra expressão audível nos discos que ambas criam enquanto CocoRosie. Outrora implicadas no fulgor quase aleatório que a freakfolk atingiu em inícios do séc. XXI, as irmãs Casady souberam continuar a dar corpo a ideias e ímpetos incomuns. A relação de parentesco, invariavelmente considerada quando se pensa sobre a arte das CocoRosie, muito dirá sobre a subversão plena – forma e conteúdo; estilo e substância – que estas duas mulheres propõem. Mais do que um papel central na dinâmica inerente a processos de escrita de canções, é pela complementaridade das criadoras de discos como La Maison de Mon Rêve (2004) ou Grey Oceans (2010) que escutamos essas mesmas obras como momentos ímpares. O modo como a musicalidade das CocoRosie se desenhou ao longo do tempo reflete, contudo, um pensamento fraturado: uma oscilação entre momentos acústicos, rasgos de dicção própria de um hip hop desconstruído e algum trabalho com eletrónicas. À partida uma situação sónica garrida, é também nela que se ouve cantar sobre motivos atípicos: irmãos desaparecidos, cangalheiras, incesto e espantalhos são os adornos que Bianca Casady utiliza numa poesia dispersa, ainda que desconfortavelmente biográfica.

É a esse desconforto que Oscar Hocks dá resposta plena. Sendo um esboço elaborado sobre as premissas menos luminosas da sua escrita até então, é com este conjunto de 12 faixas que somos convidados a tentar perceber – e apreciar – aquilo que Bianca não conseguiu mostrar junto da sua irmã. De forma previsível, mais do que música, muito de Oscar Hocks é uma performance, um ensaio geral que faz estandarte das suas próprias falhas. Com arranjos dissonantes, vozes distorcidas de forma ríspida: nada por aqui pretende convencer consensualmente.

Estreado na estalagem da Ponta do Sol, na ilha da Madeira, durante o Verão passado, o espetáculo no qual as faixas de Oscar Hocks se confrontam diretamente com o público ajudam a perceber a real índole do álbum: com muito pouco de um concerto dito “típico” e seguindo antes algures por entre um número circense sabotado e uma visita guiada à psique que guia quem cria. Dramas coreografados e números de dança expressiva que na realidade não necessitam de um palco formal para ter lugar: a forma como Oscar Hocks está pensado (e executado) é particularmente eficiente pela despreocupação com a rigidez do formato “canção”, valorizando antes uma atmosfera concreta que ao longo de 45 minutos recaí sobre quem ouve, de forma cerrada.

Mais do que uma coleção de poemas musicados, é no tipo de arranjo escolhido para cada uma das faixas que o álbum encontra o seu principal valor. Com ritmos e andamentos que nunca se deixam exaltar, Bianca Casady quis musicar as suas palavras socorrendo-se de clarinetes, trompetes, percussões simples, algures um baixo e teclados propositadamente desafinados. Em Left Shoe encontramos uma guitarra elétrica sofrida, mais exploratória que melódica. Se o panorama parece austero, os versos de Bianca acentuam de resto a ideia de uma viagem indecisa entre uma alucinação e uma memória persistente. Ainda assim, a musicalidade das suas rimas quase infantis subsiste: Daisy Chain, Poor Deal e certos momentos de The Empty Room não nos deixam esquecer que Bianca Casady é responsável por várias das ocorrências mais memoráveis naquilo que diz respeito às canções das CocoRosie.

À semelhança de um segredo muito mal contado, Oscar Hocks soa – e por assim ser, conforta – à versão perpetuamente inacabada de uma resposta a um conjunto de questões, propositadamente deixadas em aberto. Música folk destinada a palcos inacabados, o repertório de Bianca Casady é por agora a interessante extensão de uma personalidade viciada na subversão.

Bianca Casady & The C.i.A
“Oscar Hocks”
Atlas Chair/FANTASYmusic
★★★★

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