Três discos em tempo de Carnaval
Texto e escolhas: NUNO GALOPIM
Podiam ser outros discos, passando por outras músicas. Mas como há mais carnavais pela frente, para já começamos com estes três discos que, em seus géneros distintos e épocas diferentes, refletiram expressões da ideia de Carnaval.
E começamos nos anos 80, em clima pop…
A estratégia da EMI para sublinhar o afastamento dos Duran Duran do movimento neo romântico do qual haviam nascido, procurando assim assegurar a sua sobrevivência e maior projecção global passou pela aposta numa afirmação do grupo como uma nova força na música de dança.
Daí a ideia de, em finais do Verão de 1982, ter lançado um EP que recolhesse remisturas de canções do álbum Rio, tornando-as candidatas a morar nas pistas de dança da rentrée, assim como assegurando eventual nova passagem pelas rádios aos temas de um álbum que então somava já alguns meses de vida.
O EP, que recebeu como título Carnival, vincava também um contraponto a Save a Prayer, o mais recente single do grupo: uma balada… Por detrás do EP está David Kershenbaum, produtor com credenciais na música de dança que assegurou a remistura dos temas mais dançáveis do álbum, não apenas com o EP em vista, mas também para os máxi-singles entretanto editados e, inclusivamente, uma versão susbtancialmente remisturada do próprio álbum Rio, que a Capitol lançou depois no mercado norte-americano. Carnival foi apenas lançado em cinco países (EUA, Holanda, Espanha, Japão e Taiwan), para cada edição a EMI tendo apostado em capas e alinhamentos distintos.
Avançando para algo completamente diferente, recordamos a seguir uma entre as muitas gravações da suite O Carnaval dos Animais que o compositor francês Camille Saint Saëns compôs em 1886 após o dissabor de uma estreia menos bem sucedida. Com uma duração de aproximadamente 25 minutos, a obra sugere a ideia de retratos de alguns animais, por vezes citando referências em concreto de outras obras, ora de outros compositores ora até mesmo a sua Dança Macabra.
Inicialmente tomada como uma peça simplesmente divertida, a obra ganhou uma presença regular nos repertórios de várias orquestras e conheceu já inúmeras gravações. A capa do disco refere uma, gravada pela New York Philharmonic, quando era dirigida por Leonard Bernstein.
Ao longo dos anos O Carnaval dos Animais de Saint Saëns conheceu várias citações e foi alvo de várias revisitações, desde a dupla Buggs Bunny e Daffy Duck num especial televisivo de Chuck Jones em 1978 à sequência final em Fantasia 2000, dos estúdios Disney, à reinvenção de Aquarium (um dos andamentos), que Dick Dale (sim, o do surf rock) criou para os parques da Disney.
Entre a vasta oferta musical que o Brasil já consagrou ao Carvaval podemos recordar a banda sonora do filme de 1959 Orfeu Negro, realizado pelo francês Marcel Camus e que conta com banda sonora por conta de António Carlos Jobim, João Gilberto e Luís Bonfá.
O filme é uma adaptação ao grande ecrã de Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes, que recontextualiza para o universo de uma favela do Rio de Janeiro em tempo de Carnaval o velho mito grego de Eurídice e Orfeu.
O filme, que Barack Obama cita numa das suas memórias como o favorito da sua mãe, teve em 1999 um parente próximo em Orfeu, de Carlos Diegues, com Caetano Veloso na banda sonora, que na verdade é mais uma nova abordagem à peça de teatro original do que um remake do filme de 1959.
Em 2014, quando apresentaram a totalidade do áudio do seu mais recente álbum Reflektor, os Arcade Fire usaram no YouTube imagens do filme para acompanhar as canções do seu disco.




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