Uma montra saborosa entre raízes da música de dança
Texto: NUNO GALOPIM
Passaram cinco anos desde que os encontramos pela última vez em It’s All True (que seria a sua derradeira edição pela Domino) e mais longe ainda vão os dias em que álbuns como So This Is Goodbye (2006) e Begone Dull Care (2009) deles faziam nome na linha da frente das atenções de um panorama que continuava a desbravar caminhos para a canção na linha da frente da invenção das electrónicas. O hiato desde 2011 viu-os concentrados em trabalhos em separado, com Jeremy Greenspan convidado a trabalhar com os compatriotas (canadianos) Caribou e Jessy Lanza e Matt Diemus a ficar por Berlim, lançando ideias pela sua Obsession Recordings.
Em 2015, com os single Big Black Coat (que assinalava uma inesperada incursão da sua forma de pensar a canção através de heranças do acid house) e Over It (que retomava os flirts com vivências vocais R&B já ensaiados em discos anteriores, cruzando-as com climas eletro de sabor vintage), anunciaram sinais de um regresso mais focado em trilhos pioneiros das atuais formas de música de dança e de labor trilhado entre electrónicas.
E agora, escutado o álbum, fica claro que não só os aperitivos de facto sugeriam nova ementa gourmet, como de facto aqui encontramos um belíssimo espaço de reflexão sobre as raízes que entre finais dos setentas e os anos 80 ajudaram a definir muitas das músicas que fazem o nosso presente electrónico. E o contraponto certo para dias de tédio e frustração com as suas vidas pessoais e o cinzento dos dias ao seu redor com os quais os dois músicos viveram alguns dos seus tempos mais recentes.
O álbum passa por ecos dos primórdios da house (M&P) ou do electro de primeira geração (C’Mon Baby), juntando ainda pistas que evocam memórias de Detroit ou da noite nova iorquina de outros tempos, com um mimo para aqueles que gostam de versões numa deliciosa leitura bleepy com atmosfera hi-nrg de What You Won’t Do For Love, um original de 1978 de Bobby Caldwell.
E tudo isto com um sentido de prazer e lazer que, sem querer montar uma montra pedagógica, acaba por nos dar um dos mais completos e deliciosos retratos feitos no presente de um importante conjunto de memórias que, underground nas origens aqui citadas, acabariam depois por mudar o curso da história da música de dança.
Junior Boys
“Big Black Coat”
LP, CD e DD City Slang
★★★★


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