O relógio avariado
Texto: DIOGO SENO
O título aparece nuns versos de um poema com que o filme abre, e será mais à frente referido por duas personagens. É um título que dá logo ideia do absurdo que vai ser o seu terreno.
Uma avó acorda num lar longínquo com um súbito desejo de reaver o seu antigo relógio de pêndulo, levado para arranjo há vários anos. A neta decide-se a levar o relógio à avó, apesar de ainda avariado, fazendo-se acompanhar dos primos numa viagem de quilómetros pela Suécia.
Uma série de vinhetas cómicas, filmadas quase todas em planos fixos e enquadramentos estudados e “arranjadinhos”, intercaladas por breves ecrãs negros. O “movimento” do filme é logo apresentado no início, e apenas começa a desviar-se no final, quando a sensação de cansaço já se instalou.
É um road movie, onde as personagens percorrem quilómetros sem chegar a lado algum, e onde não circula o mínimo de ar, tal a pose estudada de tudo. Linhas cómicas secas, entregues por actores de expressão enfadada, repetição constante de piadas e diálogos. É o que encontramos no cinema recente de Roy Andersson também, embora nesse cineasta compatriota o absurdo seja colorido e de pretensões ainda maiores.
Parece haver aqui algum comentário à perda de memória e aos “esquecidos” da História. A viagem está pejada de referências à história da Suécia e da Europa, com linhas como “Este país costumava ser grande” ou incursões em museus a introduzirem essas referências.
Há também alguns apontamentos interessantes sobre o absurdo da existência no meio das piadas repetidas, e, no final, o realizador parece aproximar-se de algo mais substancial. É ao atar os nós da narrativa e dar os retoques nas “imagens” evocadas ao longo da viagem, com os protagonistas a entregar o relógio à avó, e esta a contar um sonho que faz lembrar, não só pelos motivos, mas pela forma como é filmado (acompanhado pela voz off) e pelo que mostra, Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. É aqui que a criação se liberta da sua rigidez e do absurdo pelo absurdo, e ganha um tom mais poético e com mais gravidade.
Não chega contudo para resgatar o filme de Jonas Augustsen, que parece ter algum talento para a composição e algumas ideias poéticas, mas que não se consegue organizar para construir uma longa-metragem, pelo que o resultado final é um pouco como o motivo que lança as personagens na estrada: um bonito relógio de pêndulo, ineficaz porque avariado.
The Garbage Helicopter
Realização: Jonas Selberg Augustsen
O filme passou no International Film Festival Rotterdam Live.

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