Berlinale 2016: “Quand on a 17 Ans”, de André Téchiné
Texto: NUNO GALOPIM
Quand on a 17 Ans
Competição
O cinema de André Téchiné tem sido algo irregular nos últimos anos, mas curiosamente escapou às salas de cinema portuguesas aquele que foi talvez o seu melhor filme desde o sublime Os Juncos Silvestres (1994). Les Temoins (que passou em 2007 pela seleção oficial de Berlim) apresentou aqui, há nove anos, uma narrativa com cenário francês nos tempos em que os primeiros casos de sida começaram a ser diagnosticados e as primeiras vítimas a morrer. Quand on a 17 Ans assinalou este ano o seu regresso à Berlinale, mas com um filme dominado por uma outra esperança de vida.
Com ação numa pequena povoação remota em plenos Pirenéus o filme coloca-nos no espaço de dois rapazes (de 17 anos, diz o título) que se esmurram e provocam mutuamente sem que aparentemente haja um foco de desentendimento. Um deles mora longe da cidade, a uma hora e meia de caminhada a pé e de autocarro da escola, a sua relação com a natureza, o frio, a neve e as montanhas sendo mais fácil do que a que tece com os outros. Frequentemente isolado, Tom (Corentin Fila) é gente de poucas falas, vivendo um sonho de ser veterinário, ajudando os pais a tratar, para já, dos animais na sua quinta. O outro, Damien (Kacey Mottet-Klein), é filho de uma médica e de um piloto de helicópteros que vê mais pelo Skype, já que está colocado em zonas de guerra algures no médio oriente. Quando a mãe de um (a médica, interpretada por Sandrine Kiberlain) pede o internamento clínico da mãe do outro, propõe que ambos os rapazes fiquem em sua casa. Tenta que a diplomacia a que um teto comum os possa conduzir os leve a ultrapassar o que os separa. E mesmo tormentosa e complicada a convivência acaba por fazer com que ambos abram o seu jogo. E aqui não conto mais…
Téchiné explora magnificamente as paisagens e a relação que as estações do ano estabelecem com as suas constantes, mas lentas, mutações. E é nesse evoluir dos dias do ano, entre o frio gelado de um inverno cheio de neve e um verão com um verde vibrante e uma luz reveladora a iluminar tudo e todos que acompanhamos o evoluir de um caminho que mostra um Téchiné menos descrente do que nunca. O presente, marcado pela forma como os cenários de guerra se cruzam aqui pela personagem do pai de Damien é apenas um entre os vários elos de ligação aos vários ecos de Juncos Silvestres (com ação nos tempos do conflito na Argélia, nos anos 60) que este filme permite traçar. E atenção: é mesmo o melhor Téchiné em muitos anos.
“Yarden”, de Mans Mansson (Suécia)
Forum
O “paraíso” nórdico como muitas vezes o imagina quem lá não está pode afinal ser um verdadeiro “inferno”. E um poeta de meia idade que vive hoje fora dos circuitos da elite cultural e já só chama meia dúzia de gatos pingados quando faz leituras daquilo que escreve e que não consegue mais colocar os seus livros à venda porque, como um livreiro lhe diz, “a poesia contemporânea não vende”, acaba por ter de procurar um emprego longe da escrita. Encontra-o longe também dos seus hábitos e do que imaginava serem códigos de relação de trabalho. E é num espaço junto ao porto, onde se juntam os automóveis novos em folha prontos a vender, que começa um novo dia a dia entre emigrantes chegados de zonas em guerra, mas que, como ele, não são tratados senão pelo número e regidos por códigos que a todo o momento podem transformar as infrações em multas ou despedimentos, vazio de humanidade como mandariam as regras de uma boa distopia.
Se juntarmos a todo este quadro profissional e de sonhos desfeitos um filho adolescente ensopado num egoísmo nada atípico da idade, poderíamos partir para Yarden (The Yard no título internacional) com os ingredientes de mais um filme desencantado sobre o mundo em que vivemos. Baseado no romance de 2009 de Kristian Lundberg (que não podia ser mais atual) o filme ganha contudo alma ao explorar a fundo a sucessão de opções voluntárias e incidentes inesperados que mudam um curso de vida, focando sobretudo atenção no mundo de silêncio interior e solidão em que mergulhou aquele que deixou de escrever e acorda a cada dia para sobreviver, não abdicando contudo de numa paixão pelo mergulho e da sensação de vazio no escuro que pode sugerir. Tem um breve momento de fuga ao som de Demis Roussos. E depois conta com um olhar profundamente cinematográfico assinado pelo sueco Mans Mansson, que explora tanto as formas do porto ou do parque fechado com os carros, assim como do casting que, mesmo lacónico, deixa claro o mundo em que o protagonista ficou quando a poesia dele se esvaiu.


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